jeudi 2 avril 2015

Nocturno Europeu - Rui Nunes - Relógio d'Água, 2014 - O uso da língua e a sua relação com os leitores 100

A forma poética tradicional é um fechamento; digo tradicional na medida em que o escritor não se esforça para sair de uma temática que se aproxima do auto-castigo, utilizando "actos de linguagem" que já pertencem ao registo da literatura do apocalipse, do irremediável e do irreversível: "Escrever não elimina o sofrimento: aprofunda-o", p.90. Embora cite aqui o autor, não tenho tendência a recorrer a citações por julgar que as citações não justificam um texto; é apenas a prova da boa-fé do crítico; mas a boa-fé do crítico pode ser verificada pela leitura do livro em questão; a opinião fundada exposta pelo crítico aparecerá - mesmo quando não se está de acordo com ela. Os valores poéticos que se pedem à linguagem poética tradicional - apesar de, neste caso, haver uma proposta de inserção do lirismo apocalítico nos "actos de linguagem" do escritor - não afasta o princípio do lirismo que defende o sentimento e o sentimental; esta linguagem está gasta por ter pertencido a uma época e por todas as épocas literárias terem uma linguagem correspondente. Uma linguagem que se arrasta para fora da sua época é a que não encontra relação com o que o mundo atravessa e, neste sentido, representa um fechamento onde a estrutura lírica e elegíaca são as forças maiores do escritor Rui Nunes. O facto de se utilizar uma linguagem lírica significa voltar as costas ao que o mundo produz como sensações e emoções, mas não só. A poesia lírica catastrófica oculta que os outros estão ali e que nos espreitam. As temáticas estreitam-se na poesia sentimental, levada pelo autor ao grau sensível que tem como centro a própria pessoa; a sentimentalidade gasta é a que se exprime na centralização e na correspondência entre o escritor poeta e a figura narrativa; poesia de auto-satisfação, de auto-programação, de auto-proclamação do poético usando de termos linguísticos que levam o leitor à "podridão do mundo" como se o texto tivesse a qualidade de transformar a imanência do mundo destruído numa transcendência purificada. O lirismo está no vocabulário e no seu espectro sensível, à flor da pele, um sensível que não incomoda, certo, mas que se refere ao próprio autor como centro das preocupações a transcrever e a formular com o lirismo habitual da procura de correspondência entre o texto e as necessidades autorais subjectivas. Uma insistência na direcção de um certo nevrálgico em vez de nervoso, na medida em que o nervo está debilitado. Não estamos no campo clínico da alienação psiquiátrica, se bem que, os autores que quiserem criar uma literatura alienada e alucinada, deverão praticar um vocabulário, uma temática e um alargamento dos "actos de linguagem" na direcção do labiríntico nervoso, onde o vocabulário perderá a sua função explicativa para formular - aí, sim - um estilo individualizado que permita e forneça um mundo deformado pelo nervo "alienado" e "alucinado". Esta alucinação tem a ver com o abandono da explicação vocabular e da lógica de apresentação do assunto. Mas para a questão do labirinto alucinado,  a linguagem lirico-sentimental só embaraça; cria "actos de linguagem" que desviam o assunto para a personalização auto-biográfica, para a subjectividade, respeitosa, certo, mas limitada pelo terreno do subjectivo. O labirinto não aparece, os "actos de linguagem" líricos servem de travão, sobretudo se são empregados como linguagem já elaborada. A poesia lírica vem da sua própria ruralidade, que se encontrava como um absoluto literário no tempo do romantismo, mas que, hoje, não representa senão uma insistência na centralização que o autor propõe como método de coincidência entre o texto e ele próprio. O "absoluto literário" do lirismo romântico não tem corporalidade urbana, não decide contra as administrações. A poesia lírica é queixosa e moralista se virada para a poluição... e exclusiva. Não quero dizer que não se possa escrever sobre a poluição, quando é uma realidade que atinge tudo e todos. É o modo como se trata da poluição que está em questão; é o modo como se fala da destruição, da catástrofe... todo um processo de alinhamento de ideias que confluem no sentido do desastre. O poeta separa-se do mundo pela acusação... Não que não se possa acusar o que destrói, mas a linguagem revira-se para o autor se ele não estabelece uma distância estética que o afaste do centro da linguagem. A lírica byronesca tinha o heroísmo ou o herético do seu lado; o heroísmo - agora profundamente anulado, com múltiplas e boas razões - continha, no tempo de Byron, a união entre o poeta e o corpo social. Byron, como pessoa, era um exemplo que dava o corpo ao manifesto e que escrevia com as condições do herói. O lirismo acrescentado pelo sentimental dá como resultado uma intimidade que constitui uma barreira ao cérebro para que não se pense além da abreviação causada pela linguagem. Um mundo interior luta contra um mundo exterior. O escritor Rui Nues, antes de tudo, coloca-se em relação à palavra. A palavra é a literatura, para o autor. É ele que dá os sintomas da sua colocação e do uso da sua palavra; ligada à palavra - e ao uso abusivo que o autor faz do conceito de palavra, conceito que sacraliza o que ela contém, apesar de reagir contra ela de modo herético... mas a heresia, desde Santo Inácio de Loyola, acrescenta no sentido da fé... (estou sempre a falar do campo da ficção e não do campo que chamei da "linguagem de contrato" - no caso da linguagem prioritária de comunicação, a realidade comunicativa e a necessidade de compreensão contratual da palavra implica outros procedimentos de que já falei noutros artigos do blog) - ligada à palavra, dizia, está o mundo e o que rodeia o escritor. A linguagem poética de Rui Nunes tem uma capacidade interventiva e a descrição não é somente lírica mas abre-se a um mundo em perdição - pós-guerra, destruição, desolação geográfica e humana... em suma, a catástrofe. Em todo o caso, esta poesia - é de poesia que se trata - está envolvida por um mundo onde o lirismo se extinguiu; a participação do autor lírico acaba aqui e agora, embora um subjectivismo do desastre queira intervir para "purificar", pela escrita poética, a descrição da catástrofe. Se a literatura tem uma função para Rui Nunes é a de transcender da imanência do mundo para a beleza poética; duas catástrofes juntas!: a) uma poesia da catástrofe, lírica e auto-biográfica e b) a que corresponde ao elogio confiante da própria literatura e que pratica a beleza como forma sublimante; o leitor encontra a beleza que nasce do lixo humano. O autor pensará que esta linguagem é a mais adequada ao mundo que descreve, um mundo surdo pela ausência ruinosa da banda sonora. O autor é um visual que descreve um filme mudo com uma linguagem de catástrofe, símbolo de um fim de um mundo; não sei exactamente se Rui Nunes assinala o seu fim da visão do mundo, da sua visão ocular, ou se descreve o fim da humanidade que se apresenta, na fase terminal, como objecto moribundo, numa encenação de abandono; o ser está abandonado como o autor também o está. O mundo é um pós-guerra de destruição; só que não foram só as guerras que o destruíram; as guerras iniciaram a destruição (p.96) embora o que se lhes acrescentou tenha sido constituído pela indiferença. Em William Blake lemos um canto, uma canção, o sonoro ocupa lugar cantante; em Rui Nunes a matéria é silenciosa. O autor refere-se a um "silêncio", se bem que o silêncio é um bem de primeira necessidade... enquanto que este silêncio está na derrocada do ambiente e, sobretudo, na escrita do poeta, um silêncio já conhecido do escritor: o resultado da ruína. Rui Nunes utiliza processos linguísticos que o conduzem para um simbolismo, não o simbolismo "fin de siècle", mas para um simbolismo da catástrofe, como disse acima. Não é que a escrita tenha que ser positiva, optimista... mas a escrita do desastre terá que propor um plano crítico e uma distância (estética ou não estética, ou contra-estética) que afaste o autor da desgraça apocalíptica cuja primeira vítima é o próprio autor, se não houver distanciamento crítico. Este distanciamento realiza-se pelos "actos de linguagem" que interferem de modo a provocar uma separação entre o autor e a narração; ora, no caso de Rui Nunes, a sua tendência é precisamente a oposta, na medida em que o autor se inclui na catástrofe e é um elemento que presencia a catástrofe, sem lhe encontrar uma solução. Estamos outra vez na nostalgia que a Europa desenvolve ("Nocturno Europeu") e que desenvolveu cada vez que se encontrou diante de dificuldades, como se o mundo estivesse para acabar. O simbolismo é o que se desenhou entre o nazismo e os campos de extermínio e a eliminação de Hiroshima-Nagasaki até aos tempos da produção inútil e da indiferença de hoje. A ruína tem o seu complemento na indiferença e no sistema político que criou não só o consumo como a produção inútil, a produção devastadora que inclui a destruição antes de tudo das condições de sobrevivência do cérebro e do poético cuja finalidade (não digo funcionalidade) está perdida nesta construção da indiferença. O poético perdeu a finalidade, que era a da sua expressão, sem ter ganho outra finalidade. O que se lê é o fim da metáfora poética, não no sentido de Adorno, mas no sentido da sua inutilidade. Por mais que Rui Nunes escreva poesia ninguém estará aqui para a ler como símbolo, na medida em que a literatura entrou na fabricação da narrativa útil para os mercados e que a simbologia aqui definida trata da ausência não só da narrativa útil mas também da ausência de plano cerebral que criaria outros "actos de linguagem" que persistiriam na distância crítica e que permitiriam a finalidade da literatura e a sua implicação e a sua percepção do campo do político em sentido lato. Rui Nunes abandona-se sem um projecto político que estivesse englobado nos "actos de linguagem" e que assinalasse não o desastre mas um acidente, o acidente que o social actual propõe. Contra este acidente, a literatura distanciada terá alguma capacidade de dizê-lo de modo exacto, aproximativamente exacto, na medida do possível. Caso contrário, a literatura entra pelos terrenos da desculpa transcendental. Daí que procure a nostalgia da inocência e que tenha confiança na religião conservadora da Arte da grandiosidade poética e dos "actos de linguagem" peremptórios e grandiloquentes onde aparece veiculada a "verdade" do autor. Se Rui Nunes acaba com o mundo, se instala nele o silêncio da catástrofe é para sobressair a grandeza religiosa da arte poética e da qualidade expressiva da arte "savantizada". Só que o simbolismo de Rui Nunes destrói, em parte, uma certa capacidade da grandeza; daí que os símbolos não sejam os mesmos, de William Blake, por exemplo, a Rimbaud, a Rui Nunes. Cada época literária fabrica os seus símbolos; Rui Nunes fabricou símbolos que se encontram na sua poesia; o escritor actua com a veracidde do olhar: literatura "du regard" que constata a desolação; e a desolação está não só no que vê mas também na deficiência da vista. Não há mais nada a construir, a constituir. A linguagem do apocalipse afasta-se da realidade para construir uma metáfora paisagística, a reformulação do desastre pós-atómico, embora a expressão linguística tenha várias disponibilidades expressivas e que a literatura "artista" poderá escolher outra via, sobretudo uma via que tenha como consequência dar aos "actos de linguagem" não uma metafísica trasncendental mas uma presença imanente na realidade socio-política e psiquiátrica que se coordene com a prática que o cérebro constrói e que a linguagem transmite se os autores se colocam na escuta dos seus cérebros em vez de incidirem sobre o virtual catastrófico. O que o cérebro fabrica, em épocas consideradas de sobrevivência crítica - e todas são e foram épocas de sobrevivência - é a produção química fora de deísmos e de cosmogonias que se inspiram de Sodoma e Gomorra. Rui Nunes inclui-se na terminologia simbolista conservadora do mal universal das culturas e das civilizações, resultado do desastre, quando os cérebros elaboram várias vias em confronto com o que chamo de acidente. Literatura tenebrosa, no sentido dos pintores tenebrosos, se bem que adaptada aos símbolos actuais. Rui Nunes confia na literatura, apesar de sofrer com o acto literário; a palavra é já em si sofrimento. Os escritores "artistas" baseiam-se na "savantização", secular ou não, da escrita ficcional e na sua coluna de prestígio elaborada pelos séculos de escrita que se "savantizou" a partir dos textos sagrados e da ajuda poderosa que o sagrado foneceu ao escrito. Dante, por exemplo, pertencia aos históricos teólogos aplicadores da teologia e da liturgia. A literatura individualizou-se e tornou-se "artista" através dos tempos, baseando-se na coluna de prestígio desenvolvida pelas teorias justificativas das expressões artísticas a que chamamos Estética. A Estética formulou ideias, conceitos, fez evoluir a literatura de ficção e as outras formas expressivas. A coluna de prestígio é uma coluna "savantizada" e filosófica justificadora do trabalho ficcional que levou os escritores "artistas" a terem confiança nos "actos de linguagem" que, além de exprimirem os símbolos de cada época, exprimem implicitamente o valor dos "actos de linguagem" e a simbologia deles, ao mesmo tempo que a simboligia garante os valores estabelecidos pela Estética. Rui Nunes aceita as regras da literatura "savantizada". É um autor que encara a escrita como os antigos artesãos da língua escrita que se serviam da divindade para a colocarem no centro da obra; o pensamento de Dante tem a sua base estrutural e de sustentação na liturgia cristã; Rui Nunes implica-se num deísmo que aceita que os deuses e Deus estejam presentes sem que se exprimam por uma liturgia, na medida em que a liturgia religiosa foi substituída pela liturgia simbólica dos "actos de linguagem" que o autor aplica e que têm valor por serem os últimos, os que respondem à ruína pela ruína da literatura. O nocturno europeu é um sintoma terminal, uma evocação elegíaca e hínica da cultura desfeita simultaneamente com a civilização. 
O podre, o pútrido, a morte, a catástrofe... A ficção fixa-se numa inércia de constatação, o escritor filósofo tem direito a escrever a catástrofe por ser um pressagiador, um adivinho ou um observador que mais não faz do que ver. Quem atribui este poder ao escritor? A liturgia académica da coluna de prestígio da "savantização". Na literatura de Rui Nunes há uma representação já adquirida; a sua representação literária é um aglomerado de critérios que já nos disseram a "catástrofe" em que estamos inseridos. A ficção de prestígio está rodeada de Deus e de deuses. Esta lição vem dos gregos e do cristianismo, salvo que, hoje, tal atitude é unicamente um modo de valorizar a literatura com a presença de um Deus maiúsculo e de deuses minúsculos que trazem consigo todo o aparato da encenação das togas e dos rituais. Os escritores dos séculos XX e XXI podem continuar no uso literário das divindades deístas mesmo quando a religião só lhes aparece como uma alternativa tremenda mas consistente para apoiar ainda a valorização da literatura. Os "actos de linguagem" de Rui Nunes são os que a língua portuguesa constituiu pelos tempos fora, só que a geografia mudou, abriu-se a outros territórios; é a do viajante que regressa à infância como lugar da inocência, o antídoto contra a catástrofe, embora a morte seja a vencedora. O contraste entre um mundo imanentemente trágico e a transcendência do íntimo poético que espera purificar-se na "verdade" do que afirma pela literatura, com a ajuda da literatura. Se bem que o escritor não veja a sua "verdade" realizada... 
Rui Nunes não escreve "literatura de ajuda", longe disso; mas a literatura de prestígio ajuda-o a confirmar a sua posição superior por ser a do artista que se exprime com a sua própria e intrínseca "verdade", a "verdade" que vem do mais íntimo que é por sua vez servida pela literatura purificadora e purificada. O poder da palavra é temível por ter mais do que o seu poder; a palavra poderosa transborda: "Toda a escrita é uma palavra destruída", p.90; a destruição é a forma de ascensão da palavra que deve ser destruída para tornar-se poderosa. Rui Nunes acrescenta ao poder da palavra a sua pureza e "verdade", embora a destruição seja uma circunstância bílbica, um poder bíblico; a heresia de transformar a sua escrita num acto sacralizado (não ainda sagrado) pela sacralização da destruição-catástrofe e por uma destruição que confirma Sodoma e Gomorra. Todo este aparato não tem fundamento no acidente em que vivemos e que transportaria o escritor para uma distância crítica; o autor vive a outro nível, vive no desastre; o autor escolhe a sua liturgia: "o homem estropiado recupera / o desenho da catástrofe", p.9. Com a poesia da ruína o autor exacerba a sua linguagem; os palavrões são um acrescento escatológico, nos dois sentidos, ou seja, no sentido de excrementos e no sentido de fim do mundo e da humanidade. A poesia de Rui Nunes é uma adequação a uma viagem europeia que será um nocturno de trevas e de destruição já sem guerra. A guerrilha furiosa, que significa não só ter armas na mão mas a destruição do ambiente, a constatação das misérias humanas..., toma o lugar das guerras. A História passou a ser só urbanismo destruído; os campos são o reflexo, a descarga, um lugar já não agrário, onde se deposita o desastre. A poesia do escritor é a sua adaptação ao autor e aos seus "actos de linguagem", à época que o escritor presencia. Os "actos de linguagem" perderam um lirismo, uma poética própria das épocas precedentes, para se evidenciar pelo de hoje, uma diferença vocabular entre os "actos de linguagem" de Rui Nunes e os do lirismo português. O escritor pertence a uma geração para a qual o vocabulário tem outra extensão, abrange outras realidades. Rui Nunes expandiu o vocabulário, dentro da mesma tendência lírica, apresentando uma subjectividade da ruína que corresponde à época actual de um neo-nazismo Horst Wessel Lied generalizado. Não se trata de pessimismo à la Max Frisch, por exemplo, um pessimismo crítico e distanciado, à maneira de Ingeborg Bachmann, mas de catastrofismo, que implica a sua denúncia (não uma crítica da sociedade incluída) mas que mantém o leitor na inevitabilidade do caos catastrófico. Não chega a uma visão apocalíptica por não haver heresia suficiente. Os "actos de linguagem" transmitem uma panorâmica exterior devastada e um caos interior, uma tristeza, a de ver como se conduz o mundo da indiferença. Não é uma catástrofe cósmica - William Blake - mas um caos catastrófico nos limites da Terra imunda. Deus ainda está presente. A literatura de Rui Nunes descreve o Bem e o Mal; a presença, por mais cínica que seja, de Deus é uma constante, um corpo místico que ouve a literatura-prece, uma oração que é um convívio com a divindade (ou com as divindades), convívio que ainda faz parte de um sistema prioritário ficcional e filosófico de ver o corpo social em decadência. Quando o próprio Deus é já um decadente, que se pode esperar da sociedade?, pergunta Rui Nunes.
O escritor recorre à memória, o tempo é memorial, a infância ocupa o ponto de fuga a partir do qual a personalidade se forma e se choca com o social, a pocilga urbana que o rodeia; as sombras que vê são o resultado da poluição do mundo; literatura biológica no sentido em que o autor escapa ao poluído ou, pelo menos, para ele não contribui, denunciando-o. Quem escapa ao poluído? Seremos todos poluição já que muitos não contribuirão para a lixeira. Rui Nunes afirma-se contra a civilização e contra a última cultura, na medida em que o autor presencia que "No Báltico, a água contamina / o lodo, a vasa, a lama, uma pedra / que ficou na praia, um bloco de cimento, uma criança nua que enegrece a areia, o som de um papel amarrotado. /... ,p.31.
A anatomia simples dos poetas resume-se a braço, boca, mão, olhos... Rui Nunes espera "Não transigir: cada palavra deve ser uma pedra. / Limpa. Impossuível.", p.77. Referrência a Maurice Blanchot?, nesta intransigência e qualificativo da palavra que é poderosa por si e em si, se aplicada pelos poetas? O valor literário absoluto com que Blanchot, entre outros, quis carregar o acto literário como se fosse uma tatuagem palavrosa que teria o poder de se gravar para a eternidade? A pureza da escrita intransigente. Quando, a meu ver, não é a escrita que é intransigente, como se a intransigência fosse um dogma que os poetas aplicam por terem ao seu serviço uma liturgia dramática e "savantizada" que garante o poder da palavra; a literatura substituiu-se ao sagrado mas esta noção não tem aplicação possível quando o que se pede aos "actos de linguagem" está noutro campo. As autonomias artísticas quiseram que os "actos de linguagem" correspondessem às ideias que o cérebro escolhe e que os autores transcrevem para o papel de modo não autoritário e não confiante. 
"o mostrador recua / I niarpsie ewxyo", p.26: uma escrita ao contrário, inspirada por William Blake que escrevia ao contrário para as suas gravuras?
À suivre.