lundi 17 mars 2014

Fausto - Fernando Pessoa - Edição de Teresa Sobral Cunha - Relógio d'Água, 2013 - O uso da língua e a sua relação com os leitores 82

Modificado a 18 de Março de 2014.
As expressões artísticas são actos esclarecedores das próprias intenções e razões. O artefacto "artista" clarifica as intenções e as razões da obra e do seu autorUma obra não é a sua publicação exaustiva; uma obra é um trabalho de análise da própria disposição dos textos, dos "actos de linguagem", de modo a propor uma forma que será, ao mesmo tempo, uma sequência, um ordenamento dos elementos que a constituem. Este ordenamento, esta finalização, mesmo temporária, não executada pelo autor dá como resultado um excesso, uma repetição não desejada, uma proposta não realizada, unicamente esboçada; uma proposta que não se realiza esteticamente como uma proposta. Fernando Pessoa, coligido desta maneira, fornece-nos uma intenção sem fornecer uma razão. Pessoa teria escrito mais textos do que deveria depois utilizar, fazendo uma escolha? 
Uma nova edição, mais completa, se o termo se aplica aos trabalhos infinitos de Fernando Pessoa. Esta edição representa um maior volume de textos, com as dificuldades inerentes a tal tipo de publicação. Pessoa não teve a oportunidade (ou o desejo) de "corrigir" e de apresentar um texto sobre a personagem "Fausto", a personagem tradicional, tratada por vários escritores antes dele, de modo a termos hoje, como leitura, uma aproximação do que seria uma escolha (ou um aumento; não podemos saber...) daquilo que Pessoa quereria fazer e publicar, se tivesse tido a oportunidade de publicar um texto revisto. A "tragédia subjectiva" aqui editada sofre, portanto, de repetições e de ausências: algumas palavras, fundamentais para a finalização e a compreensão de alguns versos, não aparecem. A "tragédia subjectiva" é, de facto, trágica e subjectiva. Pessoa desvia o assunto do seu "Fausto" para uma obsessão sobre a morte, o sentir a morte e o horror do que ela representa em relação ao mistério que o universo encerra. Horror e mistério são os dois "Leitmotive" da tragédia subjectiva em verso que Pessoa escreveu, seguindo muito mais a sua idiossincrasia do que a de um "Fausto". O texto não está acabado, não por ser fragmentário, mas por não ter sido acabado, o que constitui uma outra noção quanto ao seu aspecto fragmentário tido como definitivo. (Cf. Novalis, entre autres). Teresa Sobral Cunha, no prefácio da edição anterior, cita Pessoa a propósito do facto do autor acabar dificilmente o que iniciou. Pessoa abandonava o que tinha começado. O abandono não é a considerar como uma obra em fragmentos mas sim inacabada; não são fragmentos o que Pessoa nos deixou. São textos incompletos, inacabados; esboços. Não se trata, portanto, de fragmentos voluntários e cuja fragmentaridade seria uma opção estética, mas de um abandono do texto - para uma eventual revisão ulterior? -, com tudo o que o abandono significa de inacabamento e de repetições, de escórias que o autor, se se implicasse na revisão, faria desaparecer. Pessoa não "corrigiu" o texto, não lhe eliminou as repetições, não criou outras personagens que acompanhassem o seu "Fausto", segundo os modelos existentes. Não importa; Pessoa poderia ter criado uma obra fora dos modelos precedentes. A "tragédia subjectiva" centra-se sobretudo sobre "Fausto" que encontra aqui e ali algumas outras personagens, sendo a principal, a da Morte. O texto não segue a sequência habitual de uma obra finalizada; é um "esboço" do que seria um texto definitivo se fosse preparado pelo escritor. Este posicionamento autoral coloca o leitor numa situação dupla: por um lado, o leitor descobre o interesse em ler o que o autor "preparou"; por outro lado, verifica que o "esboço" está muito pouco seleccionado e que a matéria deveria ter - se o autor tivesse tido a oportunidade de levar até ao fim a preparação definitiva da sua obra - uma outra consistência, um outro colocamento da acção, apesar do brilho habitual da poesia de Pessoa e do que a sua poesia implica como sistema contraditório do pensamento, onde a arrongância da personagem-Fausto se alia à da pessoa-Fernando Pessoa que se considera, como a personagem "Fausto", um ente dramático que viveu e vive uma dramaticidade invulgar e perfeitamente individual, ao mesmo tempo que superior à de todos. "Fausto" é um emblema de valor trágico para Pessoa ele próprio, uma personagem que não desafia a morte por saber que ela é irremediável e que se situa no mistério de compreensão do universo. 
Esta edição não vem acompanhada por um estudo sobre a cronologia dos textos. A edição precedente, feita já por Teresa Sobral Cunha para a Editorial Presença, de 1988, indica algumas datas. As datas não são significativas, no que diz respeito à compreensão do temor e do horror pela morte. Pessoa criou uma personagem metafísica e trágica que elabora um esboço poético, por vezes de grande intensidade dramática, embora o ser um "esboço" lhe retire alguma finalidade. Pessoa inscreve-se no "Sturm und Drang" da personagem de "Fausto", embora sem qualquer particularidade político ou revolucionária. Pessoa inscreve-se, esteticamente e nesta obra, no tempo de Goethe e do "Sturm und Drang", um posicionamento do autor em relação à percepção que Fausto lhe transmite da época deste movimento estético, apesar de Pessoa estar distante de muitos anos. A percepção "Sturm und Drang" é evidente, talvez pelo facto de que Goethe fundou e participou no movimento e que a personagem do "Fausto" goethiano representa, em si, as propriedades mentais da época e do movimento: estados de alma, confronto com o elixir que prolongariam a juventude - na obra de Pessoa pouco presente e deslocado para um prolongamento da vida, tout court, e não da juventude -, sobretudo pela razão de que Pessoa-Fausto não considera as relações amorosas, muito menos sexuais; a juventude de "Fausto" - contacto com o demónio para um contrato eterno de juventude - seria para uma melhor aplicação do amor, uma eternização do amor; ora, Pessoa, no "esboço" que nos fornece, coloca a figura de "Fausto" fora de qualquer relação amorosa; uma parte do texto di-lo claramente. O "Fausto" pessoano é uma figura dramática, isolada e solitária que espera a morte como um horror e que é levada pelo mistério em relação ao depois da morte e em relação ao universo. É a razão simples do morrer, uma temática pouco moderna e, como disse, muito mais ligada a um romantismo e a um "Sturm und Drang" do que à modernidade de Pessoa. Fernando Pessoa serve-se de "Fausto" para colocar-se em relação a questões de amor e de morte, sem que o aspecto erótica do amor ou da morte apareçam. Uma relação "fechada", um solilóquio diminuído pela característica de "esboço". Por outro lado, a manutenção da figura transposta para Pessoa-ele próprio faz da figura, e de Pessoa, por um efeito boomerang, uma personagem antiquada e preocupada com uma matéria poética de intensidade conservadora: de nada nos interessa saber que problemas metafísicos atingiam Pessoa, como entidade humana, no que diz respeito à morte; o facto de escrever sobre a morte deste modo significa que a sua teoria estética é regressiva e que se baseia, aqui, sim, no texto de Goethe, se bem que desviando-o para uma monotemática que se encarrega de dar-nos uma personagem horrorizada e terrificada pela ideia de morrer - de desaparecer - sem que algum rasto de eternidade e de glória (literária) apareça. Pessoa parece estar sempre preocupado com a eternidade literária da sua pessoa, como poeta grandioso que se considera. A tragédia é a de Pessoa-génio, afastado dos palcos literários, sempre à procura de compreensão, quando ele - lúcido como era - sabia que a compreensão literária e a glória correspondente não viriam, não chegariam, na medida em que habitava Portugal e a sua mentalidade redutora. Pessoa conheceu as reduções mentais do país, para as quais, inadequadamente, também colaborou. A sua poesia faustiana - esta aqui presente - é brilhante e infantil, "antiquada" e mistificadora, gótica e misteriosa, própria de um "Sturm und Drang" fatalista e medonho. A morte é uma aparelhagem tremenda, própria de uma expressão operática; a figura de "Fausto" poder-se-ia representar num texto musical tipo Mussorgsky (1839-1891), já que nenhum outro compositor me parece próximo deste "Sturm und Drang", - a não ser Gounod (1818-1893), que tratou o tema numa ópera, "Faust" (1859), se bem que a maneira de Gounod me pareça mais conservadora, sem que se possa assimilar a qualquer aspecto da nova modernidade inaugurada pelos Flaubert/Baudelaire... - e que se situasse na época de Pessoa, ou ligeiramente antes, e que fosse um compositor simbolista, à maneira retrógrada, um equivalente dos simbolistas pintores Puvis de Chavannes (1824-1898) e Odilon Redon (1840-1916)... já que os pintores simbolistas belgas, como Fernand Khnopff (1858-1921) e Félicien Rops (1833-1898) são mais "diabólicos" (c'est le cas de le dire!), precisamente no sentido faustiano da ligação do corpo e da alma, da crítica ao religioso e ao grandioso, e da presença do amor absolutamente sexuado; ía a dizer sifilítico, na medida em que a doença estava presente, inconscientemente, na obra destes simbolistas, como uma ameaça física que pertencia ainda ao registo da moral. O simbolismo recuou, na direcção de um abismo mental e romântico, tipo "Salome" (1891) e "Portrait of Dorian Gray" (1890), ambas obras de Oscar Wilde (1854-1900). O mais próximo compositor deste horizonte será Richard Strauss, embora o compositor (1864-1949) seja mais moderno, a não ser no seus poemas sinfónicos... onde as características artísticas do que era a imposição e a grandiosidade do facto de se ser "artista" estão presentes. Pessoa serve-se do mundo construtivo da poesia dramática, com todo o seu rigor retórico e de grandiosidade metafísica - e não só, o termo de metafísica não cobre tudo e todos... - à procura de ideias que tivessem vindo de outros horizontes, como a filosofia, já que a figura de "Fausto", pelo menos desde Marlowe e Goethe, estava "cheia" de problemáticas filosóficas sobre o destino, a morte, a velhice, o envelhecimento, o amor... A carga problemática da figura de "Fausto" está aqui bem presente, embora de forma reduzida; não foi por acaso que Christoph Marthaler pôs em cena o "Fausto" de Fernando Pessoa, embora reduzido no seu texto cénico (1995). A realização de Marthaler foi centrada na figura múltipla de Pessoa e na sua incongruência-congruência efectiva, na sua sabedoria e no seu "misticismo genial", no mistério e na inteligência "artista", ainda preenchida pelos elementos que faziam de um artista-génio uma personalidade que "informava" o mundo de modo idiossincrático sem que isso trouxesse qualquer ideia analítica e crítica à sua obra. O facto de ser-se "artista" colocava o escritor, e os artistas em geral, no campo da genialidade e da atracção por um certo "idiossincrático" que o artista poderia compor sem que houvesse distanciação em relação à obra. O artista protegia assim o seu voo poético, mesmo quando, de facto, era interessante e não precisava de qualquer protecção. Eduardo Lourenço cita Gomes Leal como um dos contactos possíveis; outros citam Schopenhauer (George Steiner), como ligação de Pessoa a uma estética e a uma dramaturgia, a uma compreensão das artes que, desde Schopenhauer até hoje, muitas outras perspectivas a modificaram, de modo a considerar-se que as ideias de Schopenhauer, aplicadas hoje aos fenómenos artísticos, deverão sofrer de deficiências conceptuais, se bem que, para a época de Pessoa, a filosofia artística de Schopenhauer fosse ainda de actualidade. A figura humana e literária de Pessoa situa-se numa problemática semelhante à de Nietzsche, no que diz respeito a uma atitude de grandeza do acto escrito e à personalidade literariamente extrovertida - como valor a demonstrar aos outros - sendo, no entanto, uma personagem introvertida em relação ao contacto com o mundo exterior. A procura de grandeza não favorecia a procura de contacto. Nietzsche e Pessoa "fecharam-se" ao mundo, "abrindo-se" através da realidade ficcional ou da "autobiografia da genialidade" para o mundo da expressão, sabendo que a grandeza surge - falsa ou verdadeira, institucional ou mercantil - quando a sociedade diz compreender o artista. Os dois artistas ficaram de fora da influência social; não foi e não é por acaso que as figuras literárias e artistas que se inscrevem ainda hoje nos mercados da multiplicação/reprodução ao infinito das suas obras - ao contrário dos mercados da obra única (cf. os meus textos neste blog sobre este assunto) - dependem da atmosfera mental criada pelos mercados institucionais ou mercantis. A força poética do artista, o seu estatuto de pessoa genial ultrapassava a esfera dos textos, na medida em que o artista era considerado como uma pessoa à parte. Pessoa considerava-se à parte, assim como era também considerado pela população que o lia. Schopenhauer servirá de justificação de uma certa "aura" artista e de uma visão filosófica da arte e da função do artista na sociedade, como valor e como genialidade; parece-me mais evidente situar-se o problema no campo da luta contra o positivismo que encontrou, da parte dos artistas à volta (tardia) da realização do "Fausto" de Pessoa, e antes de Pessoa, uma proposta controversa. Por outro lado, a degenerescência não é um tema de Pessoa. O poeta Pessoa não é um degenerescente, no caso de "Fausto" e na alma de Pessoa, como também nas suas justificações artísticas. Pessoa não é um decadente, nem se considera tal; a sua tragédia faustiana é, neste sentido, aceitação das premissas do artista e da sua qualidade aurística, sem que haja negatividade degenerescente, muito menos no sentido "Nordau" do termo, tomado pelo ensaísta como definitivamente negativo. Pessoa é "Fausto", na sua compreensão da grandeza da personagem literária. Pessoa aproveita-se da grandeza da personagem segundo a proposta feita por Goethe. 
O meio operático e a ópera em geral eram formas artísticas predominantes durante o século XIX em relação às expressões de espectáculo. Neste ambiente "Sturm und Drang" e na direcção de um simbolismo, através da personagem de "Fausto", Pessoa, apesar de ter sido, a meu ver, "surdo" em relação ao mundo da expressão musical, centra a atenção da sua "tragédia subjectiva" numa perspectiva de personagem de ópera. Teria lido "Pelléas et Mélisande", de Maurice Maeterlinck (1893; o livret para a ópera de Debussy é de 1902) antes de ter presenciado ou ouvido alguma versão da obra de Maeterlinck que passou ao sonoro clássico ocidental, não directamente como no caso de Debussy mas em versão instrumental: Fauré (1898), Sibelius (1905), Schönberg (1902-1903)...? Pessoa, no seu esboço, dá poucas indicações cénicas. As didascálias são raras o que corrobora a ideia de que Pessoa não tinha como característica terminar os seus planos, mais por necessidade de abandoná-los do que por falta de tempo de revisão, apesar de ter vivido uma curta vida para tão vasta obra. O pormenor correctivo não lhe interessava, não se preocupava com uma certa regularidade ou compromisso consigo próprio. Não construiu uma obra; fê-la à medida da sua ansiedade, do seu "desassossego". A tragédia subjectiva "Fausto" é uma proposta de cena com um carácter de intimidade que o "Fausto" goethiano não tem; a presença e o diálogo com várias personagens dão ao "Fausto" de Goethe uma convivialidade e "bravura" que o "Fausto" pessoano não tem; nem quer ter; o de Pessoa é um isolado, horrorizado pelo demónio que ele próprio é, criando-se um horror pela morte, temática preponderante neste esboço. Como na peça de Maeterlinck, Pessoa elaborou um texto poético longe da realidade; neste sentido o autor Pessoa aproxima-se do simbolista Maeterlinck e da sua perspectiva de linguagem unicamente ao serviço de um conceito de poesia que era praticado pelos poetas da época de Maeterlinck e pelos que vieram depois dele, poetas como Pessoa ou Rilke. O paralelo com Rilke aparece-me unicamente neste esboço; não na grande parte da poesia de Pessoa. 
Um novo aparelho psicológico surgiu na literatura assim como nas outras formas artísticas, na época de Fernando Pessoa. Pessoa conheceu intrinsecamente esse fenómeno expressivo que o colocou na literatura de expressão na continuidade do romantismo, no caso deste seu "Fausto". Esta razão psicológica vem dos "pré-rafaelitas" e dos "simbolistas", ou dos "nazarenos": a morte é um "Leitmotiv" e a representação sofredora e "feminina" da morte é uma ideia que a poética tem como sequência visível e imaginética (e que "esconde" a razão de ser religiosa da morte, religiosa no sentido cristão, tratada pelos "pré-rafaelitas", pelos "nazarenos" e pelos simbolistas como se se tratasse da morte vista segundo um prisma religioso: a perda do corpo e o valor da alma e da eternidade). Daí que se inscreva Pessoa numa corrente agnóstica que virá do "Sturm und Drang" até ao simbolismo faustiano; Pessoa trata do problema literário e simbólico da morte como de um fenómeno da intransparência da relação do corpo com a alma; ou melhor, da metamorfose invisível do corpo em alma; só que Pessoa não tem esta confiança sofredora; o autor cria uma personagem sem a vantagem que "Fausto" obtém na obra de Goethe: um contrato de juventude eterna e uma realização amorosa que a juventude favorece. O "Fausto" pessoano tem só horror em relação à morte e mistério em relação à incompreensão do universo; Pessoa diz não compreender o que bem compreende: que será uma alma de escritor sem finalidade, sem eternidade e sem glória literária. Uma alma "bêbeda". Teatro poético do etéreo como é a obra de Maeterlinck, Pessoa criou este ambiente gótico de morte e mistério sem cenário. Se se quiser propor um cenário, um local para o "Fausto" pessoano, deveria ser uma estância íntima sem que houvesse qualquer vestígio corporal, a não ser um "Fausto" cuja dicção seria o centro da acção. Peoma recitativo, drama estático e contemplativo segundo a ideia de que não se escapa ao destino; um fatalismo pressentido, duplamente pressentido na medida em que Pessoa, como todos os poetas da sua época, teria um "segundo sentido", um sentido "segundo" que estaria próximo da revelação, da adivinhação do futuro. E a morte é mais do que adivinhada: é o futuro! É certa, com a sua realidade inevitável: é o horror. Existe um paralelo possível entre Pessoa e Virginia Woolf: o tratamento feminino do horror do "Fausto" pessoano está próximo do que deveria ter vivido Virgina Woolf, como pessoa: a possibilidade de encontrar a loucura, ou a possibilidade de confirmar aos outros que aquilo que eles chamam a loucura de Virginia Woolf está à vista. Virginia Woolf quis "esconder" o seu "estado"; ou melhor, aquilo que os observadores íntimos chamavam o seu "estado"; Pessoa tê-lo-ia escondido sempre, no seu quotidiano; as suas múltiplas personagens, não. Fausto é mais um heterónimo, uma faculdade de exprimir-se multiplicando as facetas de modo cultural; cada heterónimo é um conceito cultural. 
O ambiente "pré-rafaelita" ou o do movimento simbolista é desejado como intemporal e etéreo, apesar das personagens estarem localizadas, figurativa ou discursivamente entre o nascimento e a morte de Jesus Cristo e a Idade Média. No caso "simbolista", a realidade ambiental vai mais longe, celebrando o êxtase entre o ambiente decorativo e o decorativo do espírito, numa exaltação saturante do que escapa à realidade, ou do que se encontra fora dela, se bem que constituindo uma "realidade outra", mais profunda. A "intemporalidade" não é uma tão visível "intemporalidade" mas uma atribuição simbólica do tempo, como se todo o simbolismo da cultura ocidental tivesse a sua origem no cristianismo, no Novo Testamento, e nos símbolos que aí estão presentes e que foram desenvolvidos através dos tempos. É o mundo cristão, desde a sua génese, nas suas datas entre o nascimento e a morte de Cristo que surge, mental e expressivamente falando, nas obras simbolistas e nas anteriores obras "pré-rafaelitas" ou "nazarenas". Pessoa não escapa a esta simbologia. "Fausto" fá-lo entrar em contacto com a relação Deus-Demónio na qual Pessoa intervém como pessoa e como autor, apesar de que o seu "Fausto" não concluir um contrato com o demónio. Não há nenhum contrato no "Fausto" pessoano; Pessoa encontra-se, esteticamente falando, no fim de uma época simbolista, na qual a morte representa um símbolo e, simultaneamente, uma realidade irremediável.
A poesia faustiana de Pessoa inscreve-se na tradição da poesia entre mistério agnóstico, cosmos e divindade, religião e esoterismo, onde o pensamento ocupa o lugar de "vítima". Por outro lado, o sonho é uma escapatória e uma oposição à realidade sem que ele seja, ao mesmo tempo, uma prova da existência do inconsciente. A função do sonho é a de sair da realidade. O mundo descrito é pueril e próprio de quem não tem ou não quer aplicar o conhecimento científico correspondente à sua época. Ficam as metáforas que atravessaram as épocas, sem nenhuma relação com os conhecimentos científicos, psicológicos e sociais da época de Fernando Pessoa. Nisto está claramente uma intenção de propor um "Fausto" preso aos "Faustos" precedentes. Faz parte da retórica poética do seu período ficar pela ideia de incompreensão; p.182: "Mas o quê? Quando vi e compreendi / Compreendendo, só na incompreensão / Eu encontro o terror disso que foi / Essa revelação." 
O que a retórica poética procura no poeta é a forma sublime de dizer o que os leitores - os outros -  exprimem banalmente: verdades "retóricas". A poesia não se libertou (ainda hoje) desta problemática, como se pudesse unicamente ter expressão interessante se e quando canalizada para uma linguagem especificamente transcendente. A retórica pessoana passa por dizer que a vida poderia ser mais bela, embora o fatalismo o impeça; p.251: "D'outra vida mais bela / A esperança já desesperada / A gélida e constante aspiração." Um projecto conservador. A presença religiosa está sobretudo na ligação que o poeta faz da passagem da vida à morte. É nesta interrogação que Pessoa chama o Deus para que haja uma resposta impossível; e que ele sabe impossível. Mas a religiosidade instala o valor da eternidade e a ligação da vida real a uma "outra vida" que, fatalmente, não lhe parece que seja a mesma, um continuum, mas uma resolução da eternidade só poderá existir se houver, não digo fé, mas a participação do divino que a sociedade transmitia (e transmite) mesmo aos que se diziam fora da religião. Fausto-Pessoa tem uma dúvida permanente que lhe causa o horror e o mistério do universo, os dois termos repetidos na obra.
À suivre.