vendredi 22 mars 2013

Ibéria - Introdução a um imperialismo futuro - Fernando Pessoa - Ática - 2012 - Edição de Jerónimo Pizarro e de Pablo Javier Pérez López - O uso da língua e a sua relação com os leitores 64

Modificado e acrescentado a 9 de Abril de 2013.
Pessoa como um todo, uma totalidade. A publicação de mais um livro sobre textos de Pessoa - e digo sobre textos, na medida em que não foi Fernando Pessoa que elaborou esta publicação - implica comentários sobre os conteúdos e sobre a maneira de publicá-los, hoje, quase um século depois dos primeiros textos aqui inseridos e, na maior parte, não inéditos, como os autores da compilação nos informam. Foi para uma maior "profundidade" que os autores desta reunião de textos de Pessoa quiseram dar como prioridade de publicação. Publicar Pessoa sem comentar os conceitos utilizados por Pessoa, sem um fundamento crítico sobre o que Pessoa escreveu e pensou, significa levar o leitor actual a pensar que o que Pessoa disse e pensou é ainda interessante para uma republicação aprofundada, aqui, aprofundando a questão - actual, dizem os autores desta publicação - do iberismo, sem afinar a diferença entre o que era do pensamento geral da época destes textos de Pessoa, e de Pessoa em particular, mostrando-se como um escritor pouco ou nada original em relação à temática - e à maneira como Fernando Pessoa os elaborou. A elaboração de Pessoa, publicada quase um século depois, e agrupados os textos sobre a questão ibérica, significa abandoná-lo à mediocridade dos conceitos que o poeta utiliza. Os conceitos eram os usados pelo escritor e pela época. Pessoa não escapou ao místico, ao elitista, ao aristocrático como escritor, ao nacionalismo, ao anti-democrático, ao iberismo (sobretudo imaginado assim), ao sebastianismo, ao messianismo e a todos os outros conceitos que já conhecemos... utilizando o conceito de raça - como todos os escritores, sem excepção... - da maneira mais evidentemente conservadora - ía a dizer racista -, conceito que ainda continuou por muito tempo como um conceito aceite pela maior parte dos intelectuais e escritores - para não dizer de todos - quando o conceito já não significava nada e ao qual alguns, pelo menos, escaparam, fugindo à (e da) sua utilização mais primária. Por outro lado, Pessoa não introduziu (a meu ver, e que eu saiba até agora) nenhum novo projecto conceitual, não teorizou sobre novos aspectos que abrissem ou tivessem aberto o mental a outras concepções ou princípios que tivessem servido ou que servissem, hoje, a uma análise sobre este período, partindo de um ponto de vista diverso e original, aberto e convincente. Que fizesse de Pessoa um pensador incluído, por mais original que fosse, no pensamento de todos os pensadores originais da época. O que não acontece. O pensamento de Pessoa é só original na medida da sua mediocridade. Publicar todo o Pessoa, e neste caso, insistir sobre a matéria ibérica, significa, além do mais, incluir - como se ainda houvesse dúvidas - Pessoa entre os conservadores mais míticos, em Portugal e para os leitores evidentemente portugueses, antes de tudo. E espanhóis, neste caso. 
Estes textos não valorizam o escritor Pessoa, escritor de ficção poética ou prosista. Só em Portugal, ou nalguma parte em Espanha se poderá pensar que esta publicação será seguida com algum interesse. E por um interesse primário, se for só em consideração do Iberismo. Pessoa pensou, no seu tempo, com as matérias do passado, à parte os seus contactos com o oculto, apesar das concepções ocultistas serem em Pessoa um modo mais de permanecer obscurantista. A razão da publicação deste "Ibéria" é explicada no prefácio pelos autores da reunião destes textos. É a de dar a conhecer, já o disse, de modo mais aprofundado - e não em primeira publicação, como uma descoberta de novos textos. Os originais são aqui poucos. Esses, sim, seriam importantes, por serem inéditos, por menor que fosse o interesse dos conteúdos. A profundidade desta publicação é evidente. Mais uma razão para se discutir o que Pessoa escreve, fazendo uma análise do que foi Pessoa para o meio da época, de como pensou esta e outras matérias, como se discutiram estas matérias (ou não) e as suas ideias, e como Pessoa se serviu dos mesmos conceitos que muitos outros escritores da época, uma época muito vasta para a cultura, na medida em que apareceram muitos novos pontos de vista literários - e políticos, e sociais, e psicanalíticos... - e artísticos novos, com os quais Pessoa não esteve em contacto. O mundo pessoano é muito vasto mas fechado no seu eu múltiplo, servindo-se o poeta da língua portuguesa para inaugurar um reino literário que, afinal, nem existiu. É um rei da "nossa Baviera" (cf. os textos que escrevi sobre este assunto, neste blog) ignorado, deposto sem ter reinado, um Sebastião que desapareceu na batalha cultural portuguesa. 
O supra-Camões está à vista. A elaboração de Pessoa é a do descontente com a margem pobre da importância da língua portuguesa. Atrás da pouca importância da língua vem a pouca importância que o mundo dedicou a Pessoa, enquanto foi vivo. Pessoa fala da língua portuguesa de um certo modo que, de qualquer maneira, se poderia aceitar ainda hoje, dando aos conceitos uma outra perspectiva, utilizando outros critérios. Por exemplo: o de "língua dominada" dentro de uma "cultura dominada", de uma "produção artística dominada"; em contrapartida, falar de países ou zonas "dominantes", zonas linguísticas e culturais dominantes, ligadas que estão esssas zonas culturais a domínios económicos simultâneos. A cultura que interessa Pessoa é a cultura ocidental, mais europeia do que americana, apesar da sua leitura de Whitman e de Poe. Pessoa poderia ter escolhido, para a maior parte da sua obra, a língua inglesa... embora, nessa língua - paradoxo a seguir com atenção - a sua intervenção tenha sido pouco inovadora. Pessoa temia os adversários literários de língua inglesa? Não seria essa uma das razões para ter escolhido a língua portuguesa? Se bem que Pessoa soubesse que o nível literário anglófono era muito superior ao nível literário português, ou ibérico, para fazer referência a este livro. Pessoa teria entrado numa literatura muito mais convincente e poderosa, do ponto de vista cultural, e da sua originalidade. E da força dos mercados de reconhecimento "artista". Pessoa escolheu a língua portuguesa para se instalar num quadro literário, tendo feito um plano geral, que foi do "sebastianismo" ao "iberismo", passando por todas as fases possíveis - e nisto Pessoa foi exaustivo - que lhe dessem um apoio, uma sustentação que justificasse a sua posição genial na produção literária mundial. Mas como afirmar mundialmente a sua poesia e a sua prosa "artista" na língua portuguesa - dentro da língua portuguesa? Pessoa escreve em português a maior parte da sua obra. É no núcleo linguístico português que a sua estatura vinga, na sua época e depois da sua morte. A falta de um maior e mais significativo volume de publicações, durante a sua vida, veio acrescentar mais desalento à figura de Pessoa. O "abandono" da sua obra, na época em que a produziu, foi o habitual abandono cultural, de Pessoa e do Portugal cultural, apesar dos esforços da "Presença" e dos que lhes seguiram, até às primeiras publicações da primeira Ática. Mas, a maior parte do trabalho foi publicado depois da sua morte. Pessoa teve uma "arca" enorme mas não teve uma obra visivelmente publicada; se por obra entendo que ela nasce quando se publica, e no tempo da sua época. Fora da época do escritor, as regras da publicação impõem-se e "trabalham" de outro modo
Pessoa não abriu nenhum "mercado literário" como fizeram Yeats (1865-1939), Eliot (1888-1965), Pound (1885-1972), Michaux (1899-1984), Tzara (1896-1963), Marinetti (1876-1944), Breton (1896-1966), Cummings (1894-1962), Valéry (1871-1945), Apollinaire (1880-1918), Thomas Mann (1875-1955), Proust (1871-1922), Gide (1869-1951)... e, para citar alguns portugueses, Pascoaes (1877-1952), Régio (1901-1969), Aquilino (1885-1963) ...  em desordem. A não obra de Pessoa fez com que ele não tivesse visto a influência da sua poesia ou da sua prosa "artista" (esta, muito menos) na literatura portuguesa. Ou, pelo menos, a sua recepção, fora a indicada acima e restritiva à do meio literário. Talvez não se pudesse falar da sua recepção fora do meio literário por não haver, no exterior deste meio, um grupo social capaz de representar-se e de representar, culturalmente, qualquer interesse pela cultura, muito menos pela vanguarda pessoana. A sua presença foi sentida e elogiada por alguns; a sua obra, não. Pessoa foi imediatamente considerado como um escritor interessante pelos literatos portugueses ligados à literatura e informados como eram os escritores da "Presença", mais novos do que Pessoa e mais informados sobre o que se fazia na Europa, especialmente em frança e Inglaterra. Cf. "La Nouvelle Revue Française". Pessoa é bem um exemplo do que a pobre cultura literária portuguesa - e não só literária - fez e faz dos escritores: um nada, um apagamento constante, uma relutância para com o literário - para não invocar aqui outros abandonos artísticos, aos quais acrescento os abandonos recentes, criados pelos mercados de hoje, mercados autoritários e ignorantes, contribuidores para a ignorância geral, que a indústria livreira, mesmo em Portugal, criou e continua a criar, aqui e agora. A falta de curiosidade dos profissionais da cultura em Portugal é medonha! Ainda hoje é assustadora. Será normal que o posicionamento cultural seja lento, na medida em que Portugal viveu um sistema político arrasador e que a época actual não é favorável, num país dominado como é Portugal, culturalmente falando, (e não só), sem ter grandes possibilidades de "renverser les valeurs". 
Se tomamos em consideração a escrita de Pessoa sobre a questão ibérica como um ensaio, ou melhor, como um sumário ou vários sumários a que teria o escritor de dar desenvolvimento - a preparação de material para um eventual ensaio - a sua exegese não tem nenhum significado racional ensaístico. Aos limites da argumentação junta-se a complexidade; e esta aparece por Pessoa ter uma tendência a não clarificar, tal o aspecto sumariante que tem esta prosa explicativa sobre o iberismo. E nesta não clarificação está a passagem - eventual, e se quisermos -, da escrita ensaística para a escrita "artista", se quisermos aceitar que à escrita "artista" tudo se permite, embora a mediocridade seja a analisar do mesmo modo, se bem que com argumentos de análise diferentes. Pesa depois, portanto, o exame da escrita, mesmo considerada como "artista". Neste plano, não encontro nada de interessante, por várias razões, estas entre elas: a primeira: o nível "artista" não está presente - e procedo à apreciação do nível "artista" pela simples razão que o "nível do ensaio-prosa", racional e explicativo sobre a Ibéria, não tem significado clarificador nem para a época nem para os dias de hoje, a não ser como documento sobre um escritor interessante. Estes textos clarificam a posição de Pessoa em relação ao tema e a ele próprio mas não se confrontam com ideias abertas e concludentes sobre o assunto. Pessoa não passa do superficial, do puramente subjectivo ou do imediatamente "politicalizado" pelo poeta e pelos protagonistas que são citados no livro pelos autores desta compilação temática; por outro lado, segunda razão: ficamos a conhecer as tendências "artistas" de Pessoa quando ele, poeta e prosador "artista", se interessa por temas da sua época. Aqui Pessoa faz e pensa como os outros. Não lhe acrescenta nenhuma novidade, apesar de propor ideias. Mas as ideias propostas são inconsequentes. O que Pessoa diz sobre a cultura de outras regiões, de outros países e do outras origens não prova nada; não avança nada. O nível dos comentários de Pessoa é igual ao nível dos outros escritores e documentos correspondentes citados, opiniões "unamunas" ou não. O escritor poeta tentou muitas vezes a exegese crítica e de opinião. É o caso aqui presente; a terceira razão: estas questões "teóricas" não têm, hoje, viabilidade; são documentos para a melhor percepção do escritor literário Pessoa. E estes e muitos outros textos classificam o autor sem melhorar o nível de compreensão do seu trabalho "artista"; ou sem o valorizar, sem acrescentar qualquer originalidade ao que desenvolveu como matéria ficcional "artista". (Rapidamente: Considero matéria ficcional o que está ligado ao literário propriamente dito, incluindo a poesia, o teatro e a prosa ficcionais, assim como outras formas que tenham a pretensão literária afirmada como tal, como poderão ser os diários, as biografias as auto-biografias... A pretensão é afirmada pelos textos e pelos autores). 
Conhecemos os planos de Pessoa, as suas ideias, a sua megalomania, o seu conhecido posicionamento de "superioridade" como génio de uma só literatura - a dele e a única. A documentação é útil; já o disse noutros textos. O que me parece incrível é a publicação, hoje, de textos que, não tendo nenhuma aplicação possível no campo ensaístico, por serem as ideias de tal modo resumidas e aventurosas que pouco fica delas, se pretenda criar informação sobre as argumentações de Pessoa como se hoje as ideias fossem as mesmas; além do facto de que as ideias não são elaboradas; representam-se em forma de sumários a desenvolver... sem que tenha havido desenvolvimento. Nem se trata de fragmentos; a unidade do fragmento é outra; é mais legível. A não ser que se chame fragmentos a estes textos... Há duas espécies de fragmentos: a) o fragmento voluntário, fragmentado pela vontade do autor, uma ou várias sentenças que têm uma finalidade em si; e b) o fragmento involuntário, por ter ficado reduzido e incompleto - fragmentado - por falta de conclusão. O primeiro tem uma existência autónoma; o segundo é um agregado a desenvolver 
Apesar do eventual "talento" que tenham como foram escritas, as ideias não representam nada de fundamental para a análise do problema do iberismo, hoje e ontem. Pessoa não acrescenta nada ao que a época discutiu, com mais fundamento do que hoje - a questão ibérica, a meu ver, não se coloca da mesma maneira; não há sintomas de que se possa aplicar o que Pessoa diz à eventual problemática iberista de hoje, nem sequer quando Saramago voltou ao assunto -, apesar de, muitas vezes, o fundamento ser ridículo e ligado a opiniões reaccionárias, ou mesmo de extrema-direita. Se os textos representassem alguma novidade no que diz respeito ao autor, então seria, pelo menos, uma vantagem, que aqui e agora não vejo. A publicação de todos os textos de Pessoa - ou de qualquer outro autor - significa publicar tudo e a frase mais reduzida, e os conceitos menos esclarecidos ou acabados? Não creio. Pelo lado de Pessoa, dizia, não vejo a utilidade na publicação de sumários - a não ser que fossem publicados como tais (alguns "sumários" ou "planos" de Nietzsche foram publicados, mas esses "sumários" correspondem a obras publicadas ou a um conjunto de obras publicadas e "terminadas") -, muito menos a utilidade de publicar textos sobre uma temática que foi discutida há quase um século e que não tem, hoje, razão de ser (a mesma razão de ser...), a não ser que se procurem outros argumentos e que se estabeleçam relações de evolução com as ideias de hoje sobre o mesmo assunto. Não são os argumentos que Pessoa, e outros da sua época, propõem que farão avançar a compreensão da obra milenariamente mítica que Pessoa criou à volta dele, colocado no centro da cultura portuguesa e universal, servindo-se da "universalidade" dos descobrimentos - que não foram só portugueses; os espanhóis, os italianos, os dinamarqueses... também foram navegadores... - para continuar a função messiânica de Portugal, e do próprio Pessoa, construindo uma pirâmide conceitual sem consistência crítica, e servindo o interesse místico-mítico dos portugueses, os quais gostarão (eventualmente...) de ler que Portugal foi grande e "universal" e que poderia, no tempo de Pessoa, e por Pessoa, sê-lo de novo, pela via civilizacional da cultura. Os que assim recorrem, ainda hoje, ao misticismo messiânico de Pessoa, iludem-se com teorias e conceitos sem consistência analítica. E são sem consistência na medida em que, já na época de Pessoa, não teriam grande utilidade crítica e analítica; a não ser para aqueles que procuravam uma razão de existir que prolongasse o messianismo português; hoje, essas ideias e esses conceitos são ainda mais inúteis. Pessoa desviou a atenção do país para uma problemática de que os portugueses ainda não se "libertaram": o quinto império, já considerado de modo civilizacional e, portanto, cultural, segundo Pessoa, e outros Antónios Vieiras, a predominância sobre os eventuais dominados, caso Portugal (utópico!) atingisse essa tal mítica capacidade imperial, a grandeza histórica, a decadência do seu tempo - hoje dir-se-ia "falência cultural", e não decadência - em relação à grandeza do passado... Uma série de conceitos que "travam" qualquer apreciação crítica e aberta sobre o que se faz e como se faz cultura, sem falar em "civilização" e em critérios que, utilizados, pela mesma altura, por Thomas Mann, por exemplo, foram devidamente analisados, criticados e combatidos. O próprio Thomas Mann mudou de opinião, com a passagem do tempo, diante da realidade ofensiva de qualquer raciocínio puramente imanente, e com a ajuda dos filhos, combatentes activos do regime nazi.
Pessoa utiliza, entre outros, dois critérios em voga na sua época: os critérios de "decadência" e de "degenerescência". O primeiro ligado à teorização de Oswald Spengler (1880-1936) sobre a decadência da civilização ocidental, sendo que, para Spengler, a nova civilização seria levada à sua realização por Mussolini: "Der Untergang des Abendlandes", ou seja, "Le déclin de l'Occident - Esquisse d'une morphologie de l'histoire universelle", Gallimard, 1948, renouvelé en 1976. Obra escrita e publicada entre 1918 e 1922. O conceito de decadência percorreu grande parte do pensamento europeu. A ideia de "degenerescência" vem de Max Nordau (e não só) (1849-1923) e da sua obra "Entartung" ("Dégénérescence") (1892), obra muito seguida e criticada. O conceito de "degenerescência" foi (e ainda é) um conceito muito aplicado, e que foi, na época, muito utilizado, mesmo (sobretudo, pelo próprio Nordau) na crítica artística e na obra citada. 
O mundo das ideias e dos conceitos modificou-se; outros conceitos foram criados segundo o avanço das ciências e da própria cultura, assim como dos agentes culturais que são os "artistas", conceitos muito mais adequados às ciências de hoje, às formas de conhecimento que não admitem - a não ser que se recorra mais uma vez ao modo de funcionar conceitual da extrema-direita - estas bases de raciocínio. Os textos sobre o iberismo não representam nenhuma compreensão específica das duas (ou das três, segundo Pessoa) sociedades, a espanhola e a portuguesa. A publicação é feita como se os termos de compreensão fossem idênticos aos do tempo de Pessoa. Estas ideias, e a maneira como Pessoa as desenvolveu, estão caducas. Não têm viabilidade, tal como foram escritas e são, agora, apresentadas. As ideias extra-literárias de Pessoa são "extravagantes", pouco coerentes, pouco demonstrativas de uma qualquer análise dos problemas. Fica o lado "artista" de Pessoa, o seu carácter "futurista" e afirmativo de ideias, que poderiam ser pensadas por todos, num projecto de uma semelhança nacional e rácica (sic), de identificação, de mimetismo identificador dos portugueses, aglomerados pelo passado e pelo lado (eventualmente) "artista", considerando que a mente ficcional do autor fosse de tal modo "incontrolável na sua relação entre o ficcional e a realidade", que o autor quisesse orientar-se segundo as suas necessidades "espirituais", para se colocar em relação ao que o país, artisticamente, lhe propunha, assim como em relação à língua com que escrevia. Não tão "espirituais" como se poderia imaginar, na medida em que o poeta prosador Pessoa procura estabelecer,  além do mais, um mercado cultural mais vasto do que aquele que lhe serve de classificador. O mercado cultural português era (e é) medíocre, nunca se interessou por Pessoa e pelos modernistas da sua época, nunca precisou de Pessoa. O autor criou uma vasta rede de considerações sobre o seu "supra" de modo a justificar-se no mundo "universalista" das artes, princípio já não muito "moderno", e discutido por todos os intervenientes activos e verdadeiramente modernos do começo do século vinte até à segunda guerra mundial. Pessoa é um futurista de conceitos, nesta compilação de textos sobre a ideia ibérica. Estes textos-sumários são muito sintomáticos de um escritor idiossincrático. Se a idiossincrasia era considerada fundamental para a "originalidade" do escritor, e do artista em geral, então estamos no terreno justo da apreciação "literária" destes sumários. Mas para integrá-los num conjunto de ensaios sobre o iberismo, então estamos diante de uma apreciação "ensaística", que não se justifica por si como um conjunto de textos que teriam alguma coerência e necessidade de se discutirem hoje ainda; é na sua adaptabilidade literária ao tempo em que se examina uma obra que ela é (ou não) uma obra interessante. É na sua leitura renovada segundo as épocas que a obra de um escritor interessante tem e demonstra a sua viabilidade literária. A argumentação de Pessoa, como ensaísta, neste caso do iberismo, não tem hoje fundamento.  A argumentação é nula, ou pouco mais. Algumas conclusões sobre as colónias, por exemplo, daraiam a impressão de que Pessoa fosse um anti-colonialista. Nada mais falso. O que Pessoa queria era confrontar-se com o problema civilizacional. E a África não era terreno interessante, sob o ponto de vista cultural. O seu nome, como sinónimo de cultura e de civilização, não seria apreciado-seguido-prestigiado em África, segundo as concepções de Pessoa. 
O tema já seria de pouca importância para as datas de publicação eventuais. E a "pouca importância" cai do lado da expressão "artista". Quando se passa da ordem do ficcional literário - como defini acima - para o ensaio, experiência de racionalidade e de raciocínio explicativos, o ttrabalho mental dos actos de linguagem confrontam outros pretextos e outras "finalidades". Os textos ensaísticos sobre o iberismo são banais, paradoxais (mas o paradoxal poderia estar do lado "artista"!), e demonstram a falta de conhecimento intrínseco dos assuntos tratados. Se os colocarmos no terreno da ficção autoral, ou seja,  no terreno dos "actos de linguagem" que se referem ao ficcional, a obra poderá ser lida de outro modo, embora sem que o escritor saia desta prova mais valorizado - sai mais caracterizado, isso, sim -, visto que o tratamento das temáticas é sempre orientado para um posicionamento retrógrado, subjectivista ou sensacionalista... Pessoa coloca-se no centro do seu universo "universal", um universo que perfaz, ele só, toda a literatura portuguesa. Tomo em consideração a sua tendência "artista", na medida em que o que interessa a Pessoa é a cultura civilizacional e o seu posicionamento na pobre cultura portuguesa, como um caso isolado (ou quase), e que ficaria com maiores possibilidades de "exportação" se houvesse um mercado maior, impulsionado pelo poder "civilizacional" que Pessoa vai buscar à História civilizacional, sem fazer uma só análise a esses factos, e servindo-se das grandezas mais indigentes, embora, na sua época, fossem ainda matéria de realce. 
Os elementos de análise de que Pessoa se serve são reduzidos, faltam-lhe elementos de apreciação; Pessoa estava orientado para uma finalidade própria: a melhoria civilizacional e artística da Ibéria, e de ele próprio. A argumentação é não só superficial mas também "alucinada". Neste sentido, Pessoa adquire uma sintomatologia "artista" que o liga a toda a estrutura mental e criativa dos artistas que se aproximaram da "alucinação artística",  própria da ficção, do ficcional e do artístico, e que foi "anunciada e teorizada" por Flaubert. Mas a alucinação artística não tem nada a ver com, p.72: "Formado o Estado Iberico, qual deve ser a sua orientação conjuncta? Tripla: (1) o domínio spiritual das Americas do centro e do sul, e assim o imperialismo de cultura no Novo Mundo; (2) a conquista definitiva dos territorios do Norte de Africa, onde vivem os homens nossos parentes, as raças arabes, berberes,........; (3) a destruição militar da França (e da Italia)." Aqui, a alucinação é de outro tipo! 
Em contrapartida, a orientação mítica de Pessoa faz dele uma figura do semelhante. Que os portugueses sejam uma raça, uma bitola de compreensão do que culturalmente deverão ser, sobretudo para o futuro, que Pessoa imagina grandioso! Não tinha Pessoa consciência do país onde vivia? Não tinha consciência do que, culturalmente falando, se criava e se edificava no mundo europeu, no ocidente, nas Américas... no Japão, na China, na Rússia-União Soviética...? Pessoa tinha essa consciência. E, no entanto, fechou-se na multiplicidade dos seus "múltiplos". Fechou-se à cultura do seu presente; não formula critérios de valorização do que de diferente se construía no mundo cultural, e em todos os seus aspectos, da pintura à dança, do cinema ao teatro... Os mercados de prestígio cultural estavam em Paris, em Berlim, em Londres, em Nova-York... O império da cultura, o austro-húngaro, estava na agonia... As vanguardas russas entravam nos gulags... Por ser leitor de várias línguas, Pessoa poderia ter entrado em contacto com realidades mais "actuantes" - menos messiânicas, menos obscurantistas, menos retrógradas, menos "portuguesas"... - "actuantes" no sentido de "mais originais", e que abrissem o mental, português ou não. O lado "artista" de Pessoa é o lado "abridor", embora sem fazer referência a outros mundos epocais, a não ser o do futurismo... e escolhendo o lado mais "pénible" do futurismo. Por outro lado, a capacidade poética de Pessoa era enorme: a prova está na sua parte especificadamente literária.
Neste livro temático, muitos textos estão incompletos; são resumos, sumários de matéria a desenvolver e que, até prova em contrário, não foram desenvolvidos. É natural que se queira ler todos os textos de Pessoa, como um arquivo a fazer de tudo o que se encontra no espólio; mas a finalidade desta publicação é já de outra tonalidade: é a de orientar o pensamento para realidades que terão sido secundárias na actividade do escritor. São realidades criadas pelos editores e que respondem a interesses que pouco têm a ver com os fragmentos aqui apresentados; p.56: "[...] O imperialismo é a existência de uma orientação civilizacional em um povo; e não, como os comerciantes inglezes julgam, uma maneira de ter direito ao que é dos outros." Além da boutade: o imperialismo, para Pessoa, é "a existência de uma orientação civilizacional em um povo..." : se a orientação existe, é por ser natural, da ordem do natural; é natural que se seja imperialista quando a cultura que se produz merece ser tratada como um veículo de imperialismo civilizacional! - o que é contrário a qualquer noção de cultura autónoma. A justificação pessoana do imperialismo é mítica, mística, messiânica, autoritária, dominadora e imposta pela razão mais simples: a da predisposição ao domínio civilizacional. Entre o que Pessoa diz e o que pensam os ingleses há a diferença entre o imperialista mítico natural e legitimado pelo carácter civilizacional intrínseco e o comerciante explorador. O imperialismo pessoano não seria explorador e é justificado e legitimado pela predisposição ao domínio que um povo (sic) tem sobre os outros, os dominados. A posição civilizacional vem da ideia de "quinto império" (e não só) e das justificações que a pobre filosofia do domínio portuguesa criou desde Camões - "Os Lusíadas" - a António Vieira, a Oliveira Martins... a Pascoaes e a Pessoa... e à extrema-direita portuguesa... aos integralistas e aos nacionalistas de todos os tempos. E todos os que fizeram de Portugual um país abstracto, inscrito numa nova mitologia.
Pessoa baseia o novo imperialismo no orgulho de ter tido o imperialismo do passado; e o domínio do mundo dividido em duas partes; uma para a Espanha e a outra para Portugal. O texto n°28, de 1918, é um texto político, ou seja, teorizado como se Pessoa tivesse deixado de ser o "artista" para enveredar pelo caminho do exame político, tendo as suas ideias a base no mais execrável imperialismo histórico, e a sua legitimação - refiro-me à época de Pessoa - encontra-se no facto de que, se já houve um imperialismo imperfeito, mais uma razão para criar um (o) imperialismo perfeito; Pessoa abandona o estatuto "artista" - com tudo o que este estatuto pressupõe, na época dos "Modernismos"; precisamente: sendo um dos modernismos o de Pessoa. "Modernismo" significava, então, tudo o que a procura de autonomia "artista" as modernidades reivindicaram. Pessoa, em contrapartida, instalou-se na procura mais rudimentar de um imperialismo mítico e utópico, é verdade, mas, em todo o caso, de um imperialismo do futuro, prova da sua megalomania e da sua capacidade, "artista" essa, de criar absurdos, anomalias literárias, idiossincrasias, e de atacar o próprio mental com vários demónios. Pessoa desafiava-se, destruía-se, vingava-se dele e nele próprio. Abandonou o plano artístico para entrar no comércio historico-político, legitimando (sem fundamento) uma ideia de superioridade dentro de um contexto de "complexo de inferioridade" do escritor e da língua com que praticava a sua "arte". O texto n°28 é o protótipo do texto colonial sem escrúpulos conceituais - não digo particularmente éticos, embora os "actos de linguagem" inscrevam o "que se diz", "como se diz" e "como se quer dizer", de modo consciente ou não. Paradoxalmente - o que está muito no gosto do artista Pessoa - o escritor acaba este artigo dizendo, a p.92: "Que o imperialismo seja a nossa tradição; e não o imperialismo colonialista e dominador!". Quando Pessoa sabe que o novo imperialismo seria de domínio, não de um domínio antigo, à maneira do imperialismo histórico, mas de um domínio, de uma influência messiânica e missionária. Por outro lado, se as colónias são consideradas inúteis  - Oliveira Martins fala de modo paralelo - que se vendam. Se não é nelas que se pode aplicar o novo imperialismo civilizacional, que se separem de Portugal. O imperialismo é a nova valorização, baseada na glória do passado e na genialidade do artista Pessoa, aquele que melhor leitura faz de Portugal e do seu futuro. Para que a glória não seja só domínio colonial será preciso que o elemento cultural a refaça, agora dentro do seu conceito de "superioridade" mas de "superioridade" em relação àqueles que se julgavam superiores, mas que não o são; o grau superior está na Ibéria e na sua nova capacidade civilizacional. O novo imperialismo impõe a grande cultura genial ao mundo. Portugal, isolado, não o pode cumprir. A Ibéria, sim. 
Esta utopia é arrasadora e compreensivelmente irrealizável. A megalomania é exasperante; a redução dos outros artistas a pouco - os que estão, neste caso, fora de Portugal: veja-se a maneira ignorante (indecente?, primária?) de tratar as culturas em geral - é outra das razões da irritação que estes textos causam. Não fazendo nada - absolutamente nada, em relação a uma argumentação arguta - Pessoa qualifica-se de único. E de único conceptualizador da civilização nova imperial. 
Alguns textos, em contrapartida, inscritos noutros contextos - fora da ideia de Ibéria e da teoria da civilização nova - poderiam ser analisados em benefício de Pessoa, na medida em que o escritor se mostra consciente das tentativas - ele o diz repetidas vezes - que demonstram uma habilidade e uma intuição mentais, embora sem grande fundamento teórico. Lidos segundo uma outra perspectiva, estes textos poderiam, não clarificar o princípo civilizacional, mas juntar ao escritor "artista" a liberdade de ter escrito  idiossincraticamente sobre o que ele bem entendeu. A liberdade intuitiva de Pessoa dá "vislumbres" "artistas", se bem que estes pensamentos rápidos caiam, a maior parte das vezes, em "acidentes de análise" que não se compreendem; cf. p.118: quem analisa a questão belga e a questão austríaca desta maneira assenta a ideia de nação na unidade social do povo segundo critérios que são só de Pessoa e da sua época, quando enunciados por "artistas" da mesma família. Não posso dizer que erra, seguindo a concepção "artista", mas, pior ainda: que não tem uma percepção analítica coerente. O pensamento expresso deste modo serve a incompreensão. É um pensamento ignorante. Uma exposição teórica parte de conceitos explicativos e apresentados de modo racional. Pessoa não tem uma conceptualização apropriada; por outro lado, Pessoa reproduz os clichés da sua época, sem os resolver, ou sem acrescentar qualquer elemento à sua clarificação. Pessoa é um missionário do quinto império.
A escrita "artista" é a que se define pela distância em relação ao contrato comunicativo, aquilo a que chamo o "contrato jurídico do quotidiano", a comunicação que tem por finalidade obter resultados de compreensibilidade. Verifica-se na ficção uma atenuação da "linguagem de contrato" por não haver a mesma finalidade; a atenuação é um "fabricado", um "preparado", uma mescla cuja medicina será a de separar o agente emissor da sua finalidade contratuante, ao ponto de, antes de tudo, autonomizar o próprio escritor; é ele o primeiro a surpreender-se com o grau de evacuação do contrato em relação a um fim, restando, de qualquer modo, uma outra finalidade, ao contrário do que se diz; ou seja, diz-se que a literatura não tem uma finalidade, não obedece a nenhuma finalidade, embora a finalidade da separação entre o contrato jurídico da palavra e a sua negação seja, para o escritor, a sua preocupação prioritária, se o escritor pertence aos que pretendem a autonomia. É nisto que consiste a ficção. Por ficção entenda-se, portanto, a necessidade de sair-se da "contrainte" mental do contrato. A necessidade da ficção - de qualquer ficção, seja qual for o campo artístico; a literatura, a pintura, a música, a dança... - é a prova de que os "actos de linguagem" do contrato de entendimento (quotidiano e em relação a um fim) - a chamada comunicação - não bastam para a completude mental. O que a ficção comporta é este acidente necessário que provoca a saída da codificação mais imediata e mediata - para a função comunicativa - codificação que é restritiva em relação à capacidade mental de que dispomos na sua liberdade mais abrangente, e na sua maior aplicação. O facto de haver necessidade de ficção, além de ser uma capacidade expressiva que se manifesta ao lado da capacidade formativa e da informativa, é a prova de que o mental procura a sua maior abertura, ou seja, que o mental procura a sua maior e mais larga aplicação linguística, indo servir-se do campo ficcional, por aí encontrar a sua maior vastidão organizacional, a sua "mise à l'épreuve" que não coincide com o contrato jurídido, que tem por base a compreensão em relação a um fim, de modo a poder-se falar, neste caso, de comunicação para uma compreensão, e para a realização da finalidade em questão. A ficção não tem este fundamento de finalidade; de comunicação. 
Pessoa, enquanto "poeta e prosador do desassossego", está neste plano. O que está no "Ibéria" pertence, na sua maior parte, ao explicativo, ao formativo e ao informativo. O que resta de "ficção" nestes textos é o que lhes dá a admissibilidade eventual, na medida em que a sua argumentação explicativa é de fraca conceptualização. Fora deste conceito de "ficção artista", a prosa explicativa de Pessoa é pobre.
Pessoa alimenta a mitologia portuguesa mais banal e inútil. Não usa de conceitos progressistas, utiliza critérios de análise que já não eram literariamente interessantes, na época. Nem literaria nem conceptualmente falando. A continuidade histórica portuguesa foi um pensamento contínuo das direitas portuguesas até Fernando Pessoa, no que dizia respeito ao valor histórico do passado em confronto com o valor do Portugal da época. Uma perspectiva imaginária foi a criada por Pessoa, de modo a desenvolver uma historicidade própria para Pessoa ele próprio, e para o país. Afinal, a sua versão inscreve-se no que o país foi pensando desde Oliveira Martins, e o modo como construir o mito de Portugal e de Camões, até à "filosofia portuguesa" – "filosofia pseudo portuguesa" – (Não há "filosofia portuguesa", alemã, albanesa… como se diz muitas e repetidas vezes, como não há ciência francesa, russa, apesar das tentativas de Estaline… Para se falar de "filosofia portuguesa" é, portanto, necessário que ela se focalize na portuguesidade… e, mesmo assim, não seria "filosofia portuguesa"… Seria uma filosofia ou um modo de pensar que teria como principal assunto o nacionalismo português) que alimentou uma visão nacionalista da História do pensamento. A posição de Pessoa era a posição "normal" da época em relação ao facto de que os escritores não vanguardistas ou vanguardistas conservadores ou, ainda, vanguardistas de direita ou de extrema-direita quiseram sempre servir-se de todos os poderes - e, entre eles, o poder da História, e o da História imaginária ou mitológica - para que a arte deles, artistas conservadores, tivesse ainda maior prestígio e fundamento. Como se as "artes savantes", (sapientes, cultas...), já de si prestigiosas e prestigiadas, precisassem ainda do apoio do poder do Estado ao qual queriam juntar o poder da Nação. E isto na época dos "modernismos" que tentaram dar às artes uma maior autonomia. Pessoa não combateu, pelas ideias e pela razão poética, o sistema e os sistemas de poder. Não analisou o seu estatuto em relação ao mundo - português, europeu ou ocidental... ou outro ainda. O que fez no sentido do iberismo foi uma criação "artista", no melhor dos casos, e uma criação nacionalista, não "artista" e não crítica, no pior dos casos.
Os modernismos (pelo menos alguns), mais do que as vanguardas, quiseram posicionar o "artista" de outro modo: sem o mesmo poder: sem o mesmo poder, porque o não queriam ter, e por não poderem tê-lo, na medida em que estavam fora - ou puseram-se fora - de qualquer estatuto que os levasse aos poderes ou que os chamasse. Perderam o poder, isolando-se; perderam a ligação aos poderes por vontade própria. Neste sentido, é natural que os "artistas modernistas" - os "agentes de expressão" - se aproximassem, em parte, de Nietzsche. Os "artistas" perderam o poder por estas e por outras razões que aqui e agora não assinalo.
O projecto "Ibéria" foi um projecto ideológico ligado ao político, à concepção política de uma possível união que daria uma força mais adequada à "perda" de poder dos dois países, a partir de várias concepções históricas, tendo os argumentistas compreendido que o poder dos dois países estava - segundo eles - na decadência. O "poder universal" do passado tinha sido perdido. Pessoa inscreve-se nesta corrente de pensamento, salvo que Pessoa inclui também um ponto de vista "artista" e pessoal, sempre presente nos seus textos: como ser "reconhecido" de forma mais "universal"? Saramago é uma excepção a este discurso das direitas sobre o iberismo, se bem que a posição de Saramago inclua também o seu posicionamento pessoal e, sobretudo, sentimental. O posicionamento de Saramago vai também contra a Europa comunitária, pensando que a originalidade peninsular estaria melhor defendida se unida. Ambos, Pessoa e Saramago, consideram, em todo o caso, que há (havia) razões evidentes, embora diversas, para a união entre as duas ou mais partes.
À suivre.