lundi 25 février 2013

Quando os lobos uivam - Aquilino Ribeiro - 1958 - Livraria Bertrand, 1979 - O uso da língua e a sua relação com os leitores 63

Modificado e acrescentado a 19 de Setembro de 2013.
O isolamento de Aquilino Ribeiro era, e é, de vários tipos. O isolamento de Portugal no qual o escritor residia - e mentalmente vivia -, o isolamento em relação a qualquer escola e o isolamento em relação a qualquer vanguarda. Aquilino foi escritor como entendeu e afirmou uma intelectualidade autónoma dentro do que, para ele, seria a independência do escritor em relação aos vários sistemas de censura - e não unicamente ao sistema da censura política. Outros sistemas censórios existem, particularmente o que não deixa exprimir o ser sexual. O problema de Aquilino era o de todos os portugueses que queriam sair do salazarismo, e da igreja, do conservatismo mais adunco e criminoso que levou o mental português ao isolamento, não só mental. A problemática dos romances de Aquilino é muito diversa da problemática que o hoje nos apresenta, que é muito diverso daquele que o escritor viveu e sobre o qual escreveu. Fazendo referência à data final da escrita deste romance, 1958, o mundo mudou de tal modo que o romance representa, de qualquer modo, uma realidade hoje acabada. Realmente acabada, em Portugal? A autonomia do escritor, por outro lado, permitiu-lhe escrever com os lugares comuns da língua ao mesmo tempo que usa da sua própria liberdade para estruturar os "actos de linguagem" segundo uma dinâmica muito apropriada ao que quer narrar. O escritor Aquilino é um narrador, embora seja também um pintor naturalista, mais realista na passagem para o naturalismo, usando não tanto das cores mas muito mais dos espaços que a pintura desta época representava, sobretudo a pintura portuguesa que Aquilino devia conhecer, assim como alguma pintura vista fora de Portugal, já que, na sua época, a reprodução pictórica fosse de pequena qualidade, muitas vezes a preto e branco, e de pouca cobertura. A pintura está hoje publicada em boas condições fotográficas, as cores estão, muitas vezes, razoavelmente reproduzidas. Mas o principal, a meu ver, não são as cores - embora lá estejam - mas os espaços que Aquilino conhecia bem por terem sido os seus dentro de um mundo rural que caminhava pouco a pouco para a urbanização - não é isto nenhuma novidade - mas também um mundo inculto e analfabeto onde a possibilidade de emigração para melhorar o nível de vida era uma constante, igual à de hoje,  se bem que por razões e enquadramentos tecnico-competentes muito diversos. Aquilino era um escritor urbano que narrava o campo, o rural e os seres que habitavam esses espaços. Há, no entanto, excepções na prosa de Aquilino, excepções urbanas de valor significativo e interessantes - "Caminhos errados", A batalha sem fim", "Lápides partidas", "Uma luz ao longe"... Aquilino não é só a ruralidade regional; nem só a ruralidade, nem só o regional. E daí a necessidade de criar outros conceitos que caracterizem o que Aquilino é. O facto de recorrer ao soi-disant local não o mete na linha do "escritor regionalista", convicto de que o "regionalismo" seria a base de qualquer estrutura simbólica fundamental. Aquilino está atento, está distante em relação às suas personagens, não se identifica com nenhuma, não se transporta para dentro de ninguém. É um analista que percorreu várias obras e vidas fazendo biografia crítica e biografia histórica autónomas, demonstrando uma grande abertura mental, e fazendo relato histórico com a sua própria vida dentro dessa historicidade - "Alemanha ensanguentada", "É a guerra", "Leal da Câmara", "Portugueses das sete partidas", "Humildade gloriosa", "Camilo, Camões, Eça e alguns mais"... uma obra vasta e esquecida. Falar da região não tem um qualificativo específico. Da região, da cidade, da rua, do bairro... da Europa... O que é específico, no caso de Aquilino, não é o regionalismo, qualquer regionalismo. É a relação da linguagem ao social na sua suposta integralidade. Aquilino conhece os termos adequados aos trabalhos no campo, conhece a fauna e a flora locais. É a representação da língua entre o homem e a terra que faz de Aquilino Ribeiro um escritor da geografia, do local. Não chamo a isto regionalismo; que não existe, a não ser noutro tipo de literatura. Aquilino tem uma "inteligência maçónica" no que ela informa sobre o cosmopolitismo do pensamento (e de luta contra o salazarismo), e de prática "autoritária" da inteligência. Por ser inteligente, a inteligência cria um poder; além de clarificar, Aquilino junta à sua prosa inteligente um paternalismo de quem sabe, pelo diálogo consigo próprio e com os seus companheiros, que a verdade socio-política pode formular-se. A distância entre ele e as personagens descritas neste romance é enorme, salvo que, pela língua, Aquilino aproxima-se das personagens pela demonstração do conhecimento que tem da relação entre os homens como habitantes de uma certa região - a Beira Alta - e a pobreza miserável deles. As palavras utilizadas por Aquilino são a ponte entre o cosmopolita e os miseráveis. Bastaria esta equação para que o conceito de regionalismo, como muitas vezes aparece definido Aquilino, não tivesse razão de existir. Em contrapartida, o isolamento literário em que se coloca é uma condição da sua "teimosia literária", ao mesmo tempo que demonstra uma concepção filosófica e crítica sobre o que é ser escritor e qual é a finalidade da obra. É nesta relação que digo que Aquilino "se fechou" na sua contribuição linguística - enorme - ao património inteligente da língua. Era uma outra época, até 1963, ano da sua morte. De qualquer modo, Aquilino estava em relação com o país e não o desmentiu; estava em relação com a língua e utilizou-a da maneira que lhe parecia, eticamente, a mais útil. Um factor me perturba: a qualidade da língua tem um lado bíblico, como se a língua tivesse uma origem sagrada, tal a profundidade didáctica, educativa e inteligível da palavra. Parece-me que a atitude que atravessou o século XX é a de entender a palavra como um elemento de explicação, é certo, mas, antes de tudo, de discussão e de contrato. Isto do lado do civil e quotidiano entre entendimento e decisão. É claro que a discussão e o contrato decisional não existiam no país de Salazar. Daí que alguma "autoridade" apareça nesta "ficção sem discussão"; daí que a linguagem maçónica de Aquilino seja paternalista - não só por isso - e educativa. No que diz respeito ao ficcional, a língua tem, depois de todo o século XX, uma relação mais evidente com as várias estruturas sociais, sem por isso cair na banalidade; por outro lado, a língua - a palavra - não cabe mais na sua posição de transcendência. A transcendência, disse-o já, está na capacidade que a língua ficcional tem de ser interpretada. A língua ganha a transcendência na interpretação. Não é já em si transcendência. Ou ganha transcendência explicada por palavras que, segundo os autores que assim o decidem, querem dar à palavra um estatuto transcendental, aplicando um conteúdo e uma retórica de transcendência. Aquilino ocupa-se racionalmente da língua mas dá-lhe um poder que ela, entretanto, já não tem. Não tinha já na sua época. Só que, em Portugal, devido ao regime político repressivo, a língua ainda não tinha feito a sua discussão sobre o valor dela própria, a não ser por escritores que pertenceram a movimentos literários, como os dois modernismos, e por outros escritores que seguiam os movimentos literários da modernidade... Por outro lado, Aquilino sabe que a terra tem uma imanência imediata; mas que a arte da escrita, profissional ou não, transporta a língua para um plano "poético" ou "verídico" - conforme a intenção do autor - que distancia a escrita da sua instrumentalidade ou da sua funcionalidade em relação a um fim de entendimento ou de contrato. É aqui que a prosa de Aquilino obtém uma percutância que não cabe em nenhuma definição de regionalismo, se, por acaso, e repito, houver uma definição de "regionalismo".      
O isolamento de Aquilino é o de todos os escritores, portugueses ou não, mas sobretudo portugueses, que não correspondem mais ao que se entende por "literatura", por "escritor" e por "leitor", não sendo a sua literatura, por isso, nem mais nem menos literatura da que se faz hoje; só que o nível é outro, a exigência literária, pela parte do escritor e do leitor, muito outra, assim como a capacidade de englobar o recitativo, a narração e o assunto numa relação lógica, medida pela autonomia do escritor, que se aprecia a todo o momento, mesmo quando não se está necesssariamente de acordo com a problemática mental que aí às vezes se desenha, como por exemplo, a p.50: "Era uma procissão, à mão direita o compadre Justo, à esquerda o Nacomba, que deixou a mulher a aviar os quartilhos, também ele, o grande judeu, açulado ao faro da bagalhoça". O isolamento de Aquilino seria igual ao de todos os que se referiam à comunidade judaica de modo irracional; Aquilino não escapou a essa regra indecente. Aqui, o pormenor é pequeno, mas não evita que se diga que o mundo ainda estava, em 1958, debaixo de muito silêncio que permitia, por sua vez, estas frases, de uma banalidade estúpida, que não se compreende num espírito autónomo como o de Aquilino. É o isolamento e a falta de controvérsia que faria dizer - a todos -, isto que Aquilino desabrocha aqui. 
Os diálogos aquilinianos têm a finalidade de abrir o assunto do romance; a condução dos diálogos é muito viva, perspicaz. Nota-se a inteligência de uma escrita que favorece a função libertária da língua e da linguagem, apoiada na lógica da "distância", não da "distanciação" brechtiana, mas de uma "distanciação" que é a do narrador que se diferencia das personagens e que não quer assumir os "actos de linguagem" delas nem de se mimetizar nelas, numa forma ao serviço do interior, da interiorização, "du dedans", como faria Sarraute, por exemplo, que escreveu à volta da mesma época, "L'ère du soupçon", artigos de 1947 a 1956, num livro publicado em 1956, dois anos antes deste romance de Aquilino Ribeiro, e que escrevia, p.79: "Le soupçon, qui est en train de détruire le personnage et tout l'appareil désuet qui assurait sa puissance, est une de ces réactions morbides par lesquelles un organisme se défend et trouve un nouvel équilibre. Il force le romancier à s'acquiter de ce qui est, dit Philip Toynbee, rappelant l'enseignement de Flaubert, "son obligation la plus profonde: découvrir de la nouveauté", et l'empêche de commettre "son crime le plus grave: répéter les découvertes de ses prédécesseurs". Aquilino estava muito longe de qualquer perspectiva que olhasse para fenómenos literários e artísticos desta natureza. A ordem literária de Aquilino era a de um especialista da língua, mais focado no século dezanove, que se vivia mentalmente em Portugal, do que no já avançado século vinte. Aquilino fechou os olhos ao novo século vinte, já a meio? Fechou, em parte, os olhos a toda uma nova atitude literária que, de qualquer modo, não o impediu de escrever sobre a sua "terrinha", de se localizar nela e de se estruturar nela, não procurando outros modos de funcionamento e outra relação com os "actos de linguagem" e com a língua, na medida do seu funcionamento actualizado, conservando-se ligado a um sistema linguístico perfeitamente dominado e original, mas "ancien régime". Aquilino poderia ter escolhido - se para isso fosse levado e se quisesse ter estado ao corrente, mentalmente falando, do que se passava noutros territórios linguísticos -, falar dos mesmos ruralismos sem, no entanto, se servir dos modelos que o ligavam ainda ao século dezanove. Aconteceu isto a muitos escritores: não se relacionarem com o andar dos tempos, esteticamente falando, com o que se movia e o que movia a literatura para outros campos, para outras considerações. A relação de Aquilino com os modernismos, portugueses ou não, é nula. Aquilino quis ficar à parte, quis fazer literatura pessoal e autónoma segundo o que ele considerava autónomo e autêntico, sem para isso ir procurar outros meios e outras relações com a palavra. A ruralidade regionalista de Aquilino não é, portanto, unicamente, a sua relação a uma língua ruralista e a um vocabulário regionalista - nem sempre - mas é também a sua relação ambivalente e contraditória contra a relação que os outros estabeleciam com as artes, e necessariamente com a literatura. Aquilino conheceu sem dúvida a literatura brasileira; a de João Gumarães Rosa, a de Graciliano Ramos...? O realismo de Aquilino não é de segunda mão, assim como o seu naturalismo, como disse acima. O que o distancia da modernidade é uma vontade de separar-se dos campos das experiências literárias, - ou que o escritor considerava tais atitudes como experiências literárias - escolhendo "actos de linguagem" autónomos, independentes, mas ruralistas, na medida em que a ruralidade era a justificação dos seus "actos de linguagem", neste caso específico, e a afirmação pessoal do que "fazer literatura quer dizer". O mental de Aquilino, muito interessante, é o de um cosmopolita que, tendo reconhecido o mundo, quis negá-lo através da sua prosa e do seu posicionamento, apesar das excepções, algumas delas citadas acima. Uma delas, "Alemanha ensanguentada" é bem um exemplo do que Aquilino escreveu para separar-se deste estado ruralo-naturalista que o encantava, certo, mas que o fechava num mundo que já não estava só ligado aos carros de bois, apesar da realidade portuguesa, mentalmente falando, estar ainda ligada, em 1958, aos carros de bois, às vindimas, às colheitas... por ser um país de grande percentagem de mão de obra no sector primário de produção, ainda em 1958. 
Apesar destes sintomas, a função dos diálogos neste romance, é a de criar complexidade; Aquilino não se fia numa certa linguagem comum, de discurso fácil - e nisto Aquilino aproxima-se de um certo modo da arte e do lado "artista" de Sarraute, como mental literário responsável do que é a escrita "artista", embora profissional (o que não era o caso de Sarraute). Aquilino não escreve com o que é o discurso generalizado, um comportamento linguístico comum e generalizado. Aquilino exprime-se e exprime uma linguagem muito complexa, onde as ideias e as formulações linguísticas representam um mental em funcionamento e que, por ser assim, constitui uma complexidade literária (e demonstrativa de um mental) que requer um uso e um trabalho sobre a língua e sobre os "actos de lingaugem" escolhidos que estejam de acordo com o que é, para Aquilino, fazer literatura, e o que representa fazer literatura num país politica e socialmente censurado e onde o mental é tratado com a baixeza que se conhece. Aquilino trata a linguagem e a sua responsabilidade de escritor de modo responsável: como um complexo de vários planos onde os sentidos, os sentimentos, as razões, os raciocínios... aparecem conectados de modo a dar uma impressão de grande complexidade. Aquilino sabe que a língua é um veículo complexo e complexificado, não tanto como seria de desejar, na medida em que ele se afastou, precisamente, da complexidade que o mundo ía transmitindo à língua e aos seus "actos de linguagem" para trabalhar (e esclarecer) só o seu ponto de vista, esquecendo-se de que o mundo girava e que a própria literatura não era mais aquilo que ele fazia e pensava, mas bem outro fenómeno, à parte a sua correcta responsabilidade como escritor e homem de pensamento contrário à repressão politico-social de que ele próprio sentiu pessoalmente os efeitos degradantes, notoriamente com este romance. A complexidade da linguagem coloca Aquilino imediatamente no grupo dos escritores que fizeram e que fazem a literatura em língua portuguesa, e a literatura tout court. O modo literário de agir de Aquilino é sempre demonstrativo de um mental liberto, apesar de fazer referência a um mundo fechado, pela sua inutilidade política, mas sem esquecer o sentido telúrico e poético da sua terra. Aquilino, talvez devido à censura (mas não só), não produziu escrita que nos desse a pensar sobre a realidade mental portuguesa da sua época; o mental rural regional é justo que aqui esteja; não é aí que está o problema; não é na falsa e repetida "universalidade" que está o problema. Não proponho nada que vá no sentido habitual do que se entende por "universalidade". O problema de Aquilino é de outro teor. Neste sentido Aquilino é um narrador construtor de um mundo literário ficcional, ao mesmo tempo que um escritor distante das personagens (nem sempre; já o veremos), já o disse; mas falta-lhe a controvérsia com o estado do país, que aproveitando a maré politicamente permissiva que as publicações neo-realistas tiveram, poderia ter feito de Aquilino um escritor mais paralelo e ao corrente do que se passava no território que conheceu. E tê-lo-ia feito de modo soberbo. O facto contraditório de aplicar de um certo modo a língua não quer dizer que esteja ligado de modo rudimentar ao que esta língua quer dizer. Aquilino é um grande conhecedor e aplicador da língua, em termos de novidade e de espontaneidade. Aquilino é um escritor; está - e demonstra-o - nesta sua atitude contra qualquer novidade, movimento ou vanguarda, na medida em que não quer projectar os "actos de linguagem" que pratica, e que escolheu, qualquer ideia de crítica da linguagemde crítica e de exame da língua e da linguagem. A crítica, contraditoriamente, fá-la ele próprio na escolha da complexidade formal com que escreve. Saramago procede, anos mais tarde, do mesmo modo: nada se identifica na linguagem escolhida pelo autor que seja uma razão de desconfiança sobre o que a língua diz, a presença de qualquer elemento desconfiante da língua: a língua é um material e, se se maneja bem o material, nada obsta a que seja a favor da humanidade leitora; nada na língua é traição ou redução do pensamento... mesmo que se esteja do outro lado da língua, ou seja, do seu lado ficcional, onde a desconfiança deveria ser dupla e onde se verifica o trabalho, precisamente, entre o que é ser-se língua ficcional e transmitir-se língua (na qual o funcional tem sempre lugar) aos que lêem. A responsabilidade do escritor implica, hoje, um posicionamento diverso daquele que lemos em Aquilino, em Borges, em Saramago... grandes conhecedores da língua e, ao mesmo tempo, beneméritos e condescendentes escritores da língua... sem aparelho crítico visível sobre o que a língua é. No seu aparelho difuso e complexificado, embora à maneira antiga, Borges escapa, em parte, ao que estou a dizer. Borges, entrando pelos labirintos mentais, tem uma veia moderna e crítica ao mesmo tempo, se bem que o aparelho linguístico de Borges seja só um labirinto mental e cultural, em vez de ser um labirinto crítico. O labirinto borgesiano é aceite como tal; é o mundo linguístico babelístico que dá a confusão: é a cultura que determina a impossibilidade da totalidade; e nisto, Borges, junta-se, "à son corps défendant", aos que desconfiaram da língua e dos seus usos. É nesta concepção que os linguístas aparecem hoje e que, no tempo destes três escritores, não respondia do mesmo modo. 
Citei Sarraute e "L'ère du soupçon" (1956), se bem que me pareça que já na época da escrita dos artigos deste livro de ensaios, Sarraute não veja, sob muitos aspectos, da maneira mais clara, sobretudo quando pensa que o leitor da época está à altura do que se fazia e do que ela própria propunha. Se em França era ainda possível encontrar um reduzido público interessado, nos países com menos índices de cultura e, além disso, com outras problemáticas, como a da saúde, da economia, da independência, da liberdade, da igualdade dos direitos de todos os cidadãos... - não faço aqui o inventário de todas as problemáticas possíveis -, nos países menos equipados, os leitores não estariam interessados em tal tipo de literatura. Ser localista (regionalista parece-me um equívoco) é, portanto, considerar que o isolamento é a melhor das respostas ao nível literário e mental; se bem que este posicionamento não é feito às escuras; pede, da parte de Aquilino, uma concepção da lliteratura. O isolamento permite a Aquilino "esquecer-se" do que se passa à volta, mesmo em Portugal: Encontra-se no seu estilo uma satisfação - justificada, a seu ver - e, ao mesmo tempo, uma reacção contra tudo e todos, mantendo o seu estilo e a sua escrita dentro de moldes que o "regionalizam", que o "localizam" - como se a literatura não fosse um projecto de localização, precisamente -, na medida citada aqui: o localismo é o isolamento que permite a Aquilino não conhecer, ou, pelo menos, não nos dar sintomas de que acompanha o que o mundo resolve, ou não resolve. Esta ideia é, de qualquer modo, contraditória no próprio Aquilino, na medida em que o escritor segue um estilo "ancien régime" explicativo baseado no "dehors" (no exterior), embora saindo dele, não propriamente para entrar no "dedans", mas para fugir ao exterior unicamente realista, fazendo-o por meio de "débordements" poéticos descritivos, sobretudo da natureza, que implicam um estilo pastoril platónico e telúrico que lhe dá uma grandeza, clássica, é certo, mas de grande representatividade poética. No que diz respeito ao mental português, transparece, na sua literatura, uma crítica quanto ao estado mental negativo que permite a Portugal situar-se na borda da discussão, embora, através da literatura e do seu correspondente mental, o autor se fixar sobre determinados temas, "à antiga", sem dar relevo às novas realidades que se aproximavam velozmente da época da publicação deste romance; uma destas realidades, aqui citada como um entre vários exemplos possíveis, seria o do estado das colónias portuguesas e a possível revolta a favor de uma independência. Entre outras possíveis hipóteses, que dariam a impressão de que o escritor estaria atento a outras realidades, fora dos seus assuntos habituais. A literatura obedecia a um catálogo de assuntos. Desde a época de Aquilino, a ficção em geral - não só o romance -,  introduziu novos assuntos e introduziu-se por caminhos da relação entre a palavra e o "dedans" como não tinha feito até aí. A realidade de Aquilino confinava-se ao antigo país novo-republicano, caído em desgraça com o salazarismo e o Estado-Novo. A escrita em Portugal não cultivou os horizontes que, na época, foram abertos por outras literaturas.
Outros factores ou sintomas do isolamento encontram-se no negativo dos textos de Aquilino, que continua a sua brilhante literatura como se a escrita não tivesse sofrido variantes e sinais estéticos e não estéticos importantes, seja do lado da linguística, seja do lado politico-social. Apesar disto, Aquilino dá-nos sinais, parciais e hipotéticos, do que leu, dos escritores que poderão tê-lo, não digo influenciado, mas feito pensar que outras realidades existiam e que o isolamento não deveria ser a melhor posição possível para quem faz literatura e se dedica a exprimir, pela palavra, pelos "actos de linguagem", o que o mundo, ou os mundos dizem e transmitem, como, por exemplo, Guimarães Rosa e, na parte cosmopolita e urbana, Thomas Mann... Um certo conflito manniano poderá estar na sua prosa urbana e autobiográfica, sobretudo quando se abre para a ligação amorosa urbana, muito rara mas existente em Aquilino. De qualquer modo, é impossível fazer referência a toda a obra de Aquilino, aqui, um autor que é prolixo e vasto ao mesmo tempo que paradoxal em muitas situações. O paradoxo é próprio da literatura e do escritor "artista".    
Não só o espaço mas também a natureza física do homem é um elemento de fixação da literatura de Aquiliino. O que o escritor introduz sobre o físico do homem é o seu elemento exterior. O contrário do que pensaria, na mesma época, Sarraute, que pensa que a literatura está no "dedans" enquanto que Aquilino está no "dehors", prioritariamente. Esta diferença faz a distância dos dois mundos e do mundo português - de que Aquilino foi sempre um grande representante, e justificado, no capítulo da literatura e da compostura humana, mas que tem esta vertente, a do "negativo" da sua literatura - não digo que a sua literatura é negativa -; é o seu "negativo" que é interessante, no sentido de negativo de uma foto, que me faz dizer que o que lá não está faz parte do estilo e do mental aquiliniano; a recusa é mental, já que a massa literária com que trabalha é-lhe de perfeito conhecimento; é mesmo um dos raros grandes escritores que se aproximaram, em Portugal, do escritor profissional "avant la lettre". Era profissional da escrita e fincou-se na profissionalidade da produção, seguindo o que ele entendia por literatura, sem dar contas ao aspecto "artístico" e "dedans" da sua prosa. Ou ainda: a sua prosa urbana aproxima-se do "dedans", da psicologia íntima descritiva não só do carácter mas do que vai pelo íntimo das personagens. 
A sua prosa é escrita como se estivesse numa fase anterior à "arte"; a sua prosa está ligada ao conhecimento "seminarista" da escrita; a arte da escrita, para Aquilino, é uma regra, um conhecimento e uma transmissão de conhecimento; o lado "artístico" vem distrair a função da literatura que se deve subordinar à sua especificidade de ensinar, de integrar, de dar a conhecer, de sublinhar, de tratar como se a base da literatura fosse a teologia, e a palavra de propensão litúrgica, ligada ao facto de que a palavra já foi bíblica,  certa e justa ao relação ao que se diz e à honradez do que se diz. Aquilino assume uma posição moral em toda a sua obra. É por isso que a ligação entre texto, palavra e fundo ético são de primeira importância para se perceber o que se passou com a literatura desde a sua morte - 1963 - até 50 anos depois, não só em relação aos leitores de Aquilino, sem dúvida cada vez mais reduzidos, ou mesmo desaparecidos, e ao que se consome em português e em Portugal, na língua original, na medida em que os leitores, conhecendo outras línguas, preferem os cânones industriais ao que a literatura "artesanal", "ante-arte", "pré-artística" de Aquilino. Nada de equívocos: a literatura aquiliniana é "artista", na sua elaboração e autonomia, embora esconda o "artístico". O "artístico", repito, não é a primeira função da literatura que afirma, antes de tudo, um jogo moral e ético. 
Disse acima que o corpo é representado pelo seu aspecto "exterior" (le dehors); mais uma vez, o "Naturalismo" e o seu espaço representam o homem como um "exterior", por vezes naturalisticamente sexuado e sem recurso à psicologia; o narrador pode recorrer à psicologia de carácter; as personagens, não. Procedem com uma certa manha e artimanha,  com dignidade, ou não. O homem aquiliniano é uma representação eficaz, não do que é o português - na medida em que ninguém fixa em literatura o que é uma população (não falo de "povo", ou de outras concepções indeterminadas, limitadas e abusivas; muito menos de massas... )  -, mas do que é o combate entre homens dominantes, em relação ao poder (e às mulheres), dentro de uma sociedade arcaica que Aquilino quer resolver pela educação e pelo mínimo de qualidade de vida. Aquilino, através do seus "actos de linguagem", ficcionais ou não, quis influenciar a moral pública. Este romance é um exemplo que responde a esta questão. A literatura, para Aquilino, é um acto de dignidade, como um "artesão" que apresenta os seus actos-objectos como uma realização honorável e honesta. O escritor está antes das vanguardas, por estar antes do posicionamento "artista" como o século XX o compreendeu, assim como as vanguardas e os modernismos procuraram definir. Na sua obra "Um escritor confessa-se", interessante e fenomenal - não no sentido elogioso, mas no sentido literário da palavra, quero dizer, na sua realização lógica e demonstrativa de uma ligação de autonomia e de "à vontade" em relação à palavra e ao exercício da escrita - Aquilino diz-nos bem que a sua autobiografia está ligada à profissão de escritor. Ele entende-se como escritor profissional que colabora, pelos sues romances e obras de ensaio histórico ou biográfico, na realização de um plano de conhecimento da relação entre a terra e o homem, conhecimento que vem também da sua relação com a teologia que permite relacionar o homem com o mundo das divindades ao qual está ligado; um muindo cósmico e litúrgico. Ao lado da escrita ficcional, tal como os escritores do século XIX, Aquilino quis introduzir-se na ordem do conhecimento, não se ficando só pela ficção; assim fizeram Montaigne, Pascal, Chateaubriand, Flaubert, o Eça de "A Relíquia", os orientalistas... O facto de verificarem que as ciências - e, entre outras, as ciências da liturgia do cristianismo e das religiões em geral... se desenvolviam de maneira interessante para o conhecimento humano, fê-los sair do terreno da ficção para proporem outras intervenções "exteriores ao ficcional". O ficcional não era só o romanceado. Outros elementos penetraram, influenciados pelo desenvolvimento das ciências, na literatura ficcional. Aquilino é um panteísta spinozista, ao contrário de Saramago, que é anti-religioso e que o quer mostrar, embora muitas vezes esteja ligado ao religioso, pelo lado idêntico ao que acabo de propor; ou seja, pelo lado cultural... Sem dar por isso? Como comunista Saramago teria que se posicionar, de modo consciente, em relação à história das religiões e do cristianismo. Como ficcionista, a sua tendência para a grandeza temática, para a alegoria... fazem de saramago o contrário do que ele quis dizer... Não é a alegoria uma das chaves da interpretação teológica e teleológica?
Apesar de autónoma, a literatura de Aquilino consola e conforta o leitor, na medida em que os "actos de linguagem" são não-antagonistas a não ser no capítulo da vida política e da moral pública. Aquilino não escreve uma prosa ficcional contra qualquer posicionamento linguístico. Não é uma prosa pessimista. Os "actos de linguagem" determinam com eficácia o que o escritor quer dizer, te dal modo estão "apropriados" ao assunto, à narração e à actividade narrativa em si: o seu ritmo, a sua cadência; o tom da linguagem é adequado ao que se lê. É a noção que Aquilino transmite ao leitor. Neste sentido, a escrita aquiliniana é profissional por ter como finalidade o acordo do leitor. É profissional, não só por encontrar o acordo, mas também por trabalhar no sentido mais activo da leitura, para a sua economia ficcional. A ficção está garantida pela eficácia literária de Aquilino Ribeiro: p.57. 
Aquilino está na literatura do "dehors"; o explícito é a sua gramática, o autêntico; o inautêntico de Sarraute não entra na concepção aquiliniana. Em todo o caso, se Aquilino segue o autêntico, enche-o com um a propósito inteligente (pleonasmo) , baseado num ritmo de frase que lhe vem também da complexidade dela, sabendo Aquilino muito bem como se compõe o seu pensamento e como exterioriza - literatura de explicação, com o seu ladpo didáctico -o que pensa. Um círculo vicioso que serve a autenticidade de Aquilino de maneira soberba; é ele próprio o fazedor desta relação. É um escritor "autêntico" e, se o lado profissional poderia chamá-lo para só a eficácia, o lado "artista" compõe a eficácia com a complexidade do discurso. É um artista do "exterior", na sua grande parte. A frase aquiliniana é rigorosa como o seu pensamento racionalista. É por estas razões - e muitas outras - que o profissional nega nas vanguardas o que o "artista" propõe de modo individualista e original. Apesar de Aquilino não "entrar" nas personagens, muitas vezes fala por elas: cf.p.69. De qualquer modo, o escritor fala por todas e por ele próprio: é ele o construtor do ficcional na sua totalidade. Por vezes o discurso fantasticamente bem organizado da personagem não é senão o discurso do escritor: as páginas 160 e 161 são significativas da atitude do escritor e da irrealidade da fala que a personagem usa: a persongam tem um falar evoluído que corresponde mais ao que Aquilino quer dizer do que à personagem que não teria conhecimento linguístico e racional para se exprimir assim. é nisto que está o realismo de Aquilino, ou seja, um realismo que quer coadunar as realidades e pô-las à prova da ficção sem que haja da sua parte uma subordinação ao exacto, seja ele qual for. A exactidão é a da ficção racional a não antagonista, comprovativa da necessidade ética da literatura e do papel do escritor numa sociedade injusta e primitiva. O texto explicativo, o desenvolver das ideias, a consciência delas e a inteligibilidade das frases só são possíveis quando se escreve, não quando se fala. A fala não é tão rica de complexidades. A escrita é um organismo independente e que se cria à medida do avanço da própria materialidade da escrita. Aquilino tem a governança da frase e da sua relação com o inteligível - já o disse acima. Esta relação é a inteligência e o a propósito da frase. Aquilino, neste exemplo a p.160 e 161, "sai" do terreno do romance-ficção (e a saída do ficcional é muito habitual na ficção romanesca de sempre) para explicar, pelo seu conhecimento humano e histórico o que é o habitante das Beiras. Faz história sociológica, defende ecologicamente a natureza e a relação do habitante à sua natureza. É um estudo, como fez noutros seus textos: "Geografia sentimental", "Aldeia, Terra, Gente e Bichos"... Aqui estamos diante de uma antropologia etnográfica actualizada e na qual Aquilino associa a perigosa transformação que o progresso abruptamente quer impor - o sistema do progresso, na medida em que o progresso não é só o ir daqui para ali, melhorando, mas todo um sistema que funciona a vários níveis e que apaga outros. Aquilino tem disso a consciência, embora o seu pensamento esteja preso ao precedente, não digo de modo atávico, mas precavidamente. Por outro lado, Aquilino propõe que o progresso venha depois da melhoria geral da educação, do conhecimento, e do bem estar. Aqui a sua posição é vaga, apesar de estar paternalisticamente do lado dos inferiorizados pelo sistema desigual e injusto. 
O raciocínio politico-social de Aquilino vai também além da crítica ao sistema salazarista. Não é só um ataque à falta de igualdade nasociedade portuguesa da época. É também uma luta entre a irracionalidade ancestral, imposta pelos sistemas dominantes mas não só, e a artimanha política medíocre e exploradora. Mas o saber Aquilino que a sociedade portuguesa assim o era, não lhe permitu de qualquer modo a configuração de uma literatura que ligasse este circuito mental, moral e cívico de escriba profissional e de grande acuidade, a um outro, menos explicativo mas mais "artista", que lhe colocasse o discurso noutra vertente, uma vertente mais libertadora, no sentido de escolher "actos de linguagem" e uma forma literária mais autónomos em relação á linguagem utilizada - que resta sempre do lado realista da literatura -, uma linguagem que seria o que ela não é. E não se pode escrever sobre o que a língua de Aquilino nunca foi, embora o negativo, como disse, seja a presença mais eficaz para Aquilino dizer que não aceita uma série de experiências - que ele considera experiências - literárias, tais como as vanguardas as apresentavam. Aquilino escrevia para o seu público e este não tinha necessidade de "literatura artista" para compreender e seguir civicamente o autor.    
O vocabulário é apropriado por duas razões: porque o é, e por conhecê-lo; só assim poderia ser utilizado como é. A relação entre o uso e a sua finalidade é concluente. Aquilino tem um vigor linguístico que o aproxima da veemência, sem ser uma escrita autoritária. O vigor e, mais uma vez, a sua relação à acuidade linguística. A explicação literária é a de um "tribuno". Aquilino esttá sempre diante de uma assemb leia; é para ela que ele discursa e apresenta com sarcasmo a palavra rápida, sincronizada com a ideia. É uma literatura de satisfação para o leitor que encontra uma explicação fundada do temperamento do habitante e da sua relação com o meio ambiente. Para que o leitor adira ao modo aquiliniano é de acrescentar que um posicionamento político semelhanta ao do escritor facilita a assimilação literária. Aquilino, em todo o caso, reconcilia-se com o leitor; os dois vão no mesmo sentido. Aqui não estamos (ainda) na "l'ère du soupçon", na medida em que o aristocrata literário e mental Aquilino se mostra paternalista nas suas ideias e na sua literatura. O que põe como ideias-frases na boca das personagens é o texto pensado e inteligente do autor. Para quem vivia em Portugal nos anos cinquenta, o romance é um prazer linguístico de ajustamento e de inteligência política, embora tudo relançado numa escrita racional e racionalista de quem goza com a talentosa disposição que tem para com a linguagem e o tratamento da língua escrita. Aquilino é um escritor; a arte sai-lhe pelo escrito e é no escrito que o escritor acredita. Não há "desconfiança" em relação ao uso equilibrado e equitável da língua; um sabor paternalista e de grande tribuno está sempre presente. Faulkner não apresenta as suas personagens rurais desta maneira. Nem pode. Os países e a posição social estavam nos antípodas. Os rurais de Faulkner são silenciosos e bruscos; correspondem à arte fotográfica que os fotógrafos americanos documentaram durante os anos vinte e trinta, a preto e branco. O mundo é muito mais agitado e degradado pelo que Aquilino não quer deixar penetrar na serra do Milhafre: o capitalismo, o progresso capitalista... a não ser que se dê, antes de tudo, uma educação e se pense na miséria do camponês, antes de lhe introduzir, à força, o que se considera progresso. A América de Faulkner é uma democracia explorativa e explorada pelo capitalismo progressista e cego. Aquilino está no Portugal salazarista, cuja justiça aplica as leis do regime. Este romance é, antes de tudo, um ataque à magistratura, como foi visto pelo regime quando da sua publicação, até levá-lo a processo. 
A relação de Aquilino com a língua é clássica, é teológica, é jesuítica. A palavra - mais do que o diálogo - tem uma ancestralidade etimológica, uma base demonstrativa daquilo que era e que foi nos tempos de Aquilino. A palavra ceita-se como uma herança; a sua literatura é um "dom" da história literária, uma herança que recebeu dos que o precederam, sempre neste exame de conceber a língua na sua maior clareza, esperteza e inteligibilidade. Aquilino não está na "era da suspeita". Se suspeita é dos que utilizem a língua num registo autoritário. Escrevi a palavra: autoritário. Por haver também a autoridade da palavra escrita. A palavra escrita, para Aquilino, tem a autoridade educativa e moral; tem de ser clara, razoável e de boa qualidade interpretativa do que é o homem. Para o autor, a língua é uma das poucas certezas com a qual se pode e deve atrgumentar contra os poderes. A argumentação não pode ser falaciosa. A língua, se quisermos e pusermos nela a sua clareza, é explicativa. Aquilino faz a diferença entre ser antagonista - colocar-se, é o caso, no registo da oposição ao regime escandaloso de Salazar - e ser anti-antagonista na sua arte literária. Conformista dentro do que ér a "alta utulização da palavra". O seminário ensinou-lhe esta ciência socrática da língua. Estando estabelecida a base, Aquilino prossegue com a sua arte literária no sentido ficcional, tendo em vista uma apreciação da História. Não é literatura neo-realista. Aquilino não está vinculado a ideologias. É escritor autónomo tanto quanto a sua individualidade procurava a independência. Não deve nada a ninguém. O seu estilo perdeu actualidade? De que actualidade se fala? Uma actualidade é a de querer ler-se literatura sem relação inteligível com o que a língua é, e como se desenvolvem as ideias com a língua? Neste sentido, Aquilino perdeu a actualidade. Mas há outras actualidades. Numa época de grande desenvolvimento das escritas para os mercados, o seu caso é significativo da reduzida influência dos mercados e da autonomia do escritor.
O realismo de Aquilino é um relatório (literário) do verídico; um "verismo", apesar desta concepção admitir a divagação poética. O verídico está relacionado com a autenticidade. A "inautenticidade" de Sarraute não entra no escritor Aquilino. O realismo verídico é directamente ético e moral, exemplar e formativo; o valor literário é educativo. Não quer isto dizer que a literatura da "inautenticidade" não seja moral e ética. O problema é outro: é o da confiança na palavra. Neste sentido, Aquilino não está na modernidade; pelo menos, neste sentido de modernidade. Se o silêncio actual sobre o escritor fosse dominado por este problema, ainda se poderia pensar que a modernidade lhe faltou e que é hoje um obstáculo à sua leitura; mas o abandono da leitura de Aquilino é baseado em causas que não têm nada a ver com a "autenticidade", ou não, da palavra. É o abandono de todas as literaturas - sobretudo em Portugal, país de fraco investimento cultural. É a procura da "literatura de ajuda" e das literaturas feitas para os mercados, em detrimento da literatura "artista" autónoma. Aquilino viveu à parte dos modernismos por querer e julgar que a literatura fosse uma argumentação, antes de tudo: uma argumentação e uma tomada de posição; a literatura é uma intervenção cívica - além de ser literatura - sem estar ligada a princípios ideológicos. O escritor Aquilino está sempre perto do ensaio, e do ensaio sobre a literatura. A literatura estabeleceu, no passado, regras de argumentação explicativas. A prosa estava ligada à ética. Ainda hoje, do mesmo modo? O modo é, hoje, o que passa pelos conceitos sarrautianos, mais do que pelos conceitos de literatura explicativa. É claro que, se há abandono dos autores que representam uma autonomia em relação aos mercados, e se lhes acrescenta a "suspeita" e a "inautenticidade" - e outros critérios que não aponto agora - então os leitores mais se afastarão, não tendo nenhum interesse por eles, autores autónomos; nem os mercados. A prosa ficcional de Aquilino está entre a prova, a "verdade civil" e o exame do leitor; desde que o leitor aplique o mesmo tipo de racionalidade, e que a prosa ficcional pede. A ficção tem como base a realidade; e aqui Aquilino afasta-se do conto tradicional, embora lhe garanta a influência formal; por outro lado, Aquilino abandona a fantasia da tradição oral por aproximar-se do facto quotidiano. A demonstração estilística que Aquilino faz quando da descrição do julgamento, a partir do capítulo VIII, é de grande importância para o que acabo de dizer: intervenção - pela literatura, pela arte literária - no domínio público, contribuindo para a clarificação do que foi a constituição dum tribunal especial "plenário", p.256: "A língua tem as suas leprosarias. Reparou o senhor engenheiro que plenário rima com uma série de palavras significando coisas no geral retrógradas embora com o seu pitoresco? Por exemplo, calvário, rosário, bestiário, fundibulário, trintário, antifonário, inclusive prostibulário? Dir-se-ia um bairro da Idade Média, achacado de má nota. Ouço estas palavras e parece-me ouvir um dobre a enforcados e vejo sair da igreja uma procissão, atrás de uma bandeira das Almas, conduzida por um frade negro, e um menino de coro, à frente, com uma campainha rachada: xelão, xelão!"     
Diz Óscar Lopes, no seu livro de ensaios "Em busca de sentido - Questões de literatura portuguesa", Editorial Caminho, 1994, na p.265, (a propósito de uma obra de Bento da Cruz): "[...] para mim, Aquilino é a única grande contrapartida vitalista para o génio esquizóide de Pessoa". A literatura não é classificável pelas "doenças" do escritor. As palavras - a objectividade da palavra - veicula significados sobre doenças, sobre carácteres, temperamentos... tudo o que se quiser. Em todo o caso, a literatura não é uma doença, por mais que a doença, o temperamento, a loucura... tenham entrado na organização do "dedans" da literatura. O resultado dos sintagmas que formam a literatura não caracterizam a literatura por uma doença. Não se pode dizer, por exemplo, que Aquilino é a única grande contrapartida vitalista para o génio de esquizóide de Pessoa, referindo-se à literatura de cada. Se os carácteres e os temperamentos são vitalício de um lado e esquizóide do outro, o resultado literário não se qualifica do mesmo modo temperamental, apesar, repito, da cada vez haver uma maior intervenção do "dedans" nas literaturas, e das concepções que aproximam a arte da loucura. A literatura em si não está sujeita a doenças; é um resultado do que se quer dizer. O que se quer dizer é que reflecte, na medida do possível, uma ligação com o interno, ligação que é simplesmente ficcional, apesar de todas as tendências das literaturas em quererem afirmar o contrário. Os próprios escritores atribuem à literatura que produzem um carácter temperamental - quando o atribuem - que pouco significado literário tem, apesar de toda a ainda grande interferência do ego temperamental no fazer literatura, julgando os autores que o temperamento está lá. A interferência está sempre lá, embora não seja suficiente para atribuir à literatura a "doença" do seu autor. A literatura autobiográfica utiliza muitas vezes esta ligação temperamental, se bem que a autobiografia seja uma ficção em relação a um fim: o de dizer-se o que se é, quando o que se é "não cabe" na literatura. Qualquer tentativa... não passa de uma tentativa. Isto não quer dizer que a literatura seja uma peça autónoma, sem que o escritor não se veja atrás dela. A relação existe, mas o qualificativo por tipo de doença ou por temperamento não existe. Chama-se de autobiográfica a literatura que põe o ego - a primeira pessoa, nem sempre o ego... - em evidência. O pô-lo em evidência só qualifica a literatura de "mise en évidence de l'ego", como qualquer outra personagem. Daí que se possa dizer que o autor, qaundo escreve ficção, é todas as suas personagens, na medida em que se mimetiza nelas; como se elas fossem pessoas vivas. Tudo - desde o assunto às personagens - é criação ao autor. O autobiográfico nao é ficção? É a primeira ficção, a de saber-se como se é dentro, "du dedans", sem ter a perspectiva do "dehors" (do de fora). Para uma única objectividade possível, o sujeito teria que sair dele próprio para sair ao mesmo tempo do ficcional. A relação temperamento - escritor - língua - e literatura não se faz segundo a ordem do contágio. Pode ter-se um temperamento esquizóide sem que se transmita à literatura a mesma intensidade "doentia", a mesma oportunidade "doentia". Os que assim fizeram e pensaram "abusaram" da literatura, que é consciente - a não ser que se queira dizer que toda a literatura, toda a obra de arte, é "art brut". Ou seja, que a relação do artista à obra é irracional, inconsciente e fruto da "doença". O que se verifica, muitas vezes, e os autores bem colaboraram nisso, é julgarem os autores que a sua relação à obra é influenciada pelo temperamento. Influenciada, repito, é, mas o resultado não é o resultado do contágio. A obra não é uma "doença" e, quando é, não quer dizer que seja "doente" mas que o autor abusa do que é a literatura para vê-la com um espelho de si próprio. A literatura de Artaud não é equivalente à sua "doença mental". É o resultado da sua análise do seu caso; embora o autor queira transmitir um desfazamento, a literatura resultante é um exame lúcido, consciente do que se passa. Artaud (1896-1948) não passa do temperamento à obra. Neste sentido, a "art brut" não é uma réplica "doentia" da doença do pseudo-autor. Para os autores autónomos, a autonomia é a própria libertação do temperamento e das eventuais consideradas "doenças" psicológicas, através da obra. A obra é o resultado liberatório. Só os pequenos autores é que julgarão - e será mais próxima a relação entre temperamento e literatura, nestes casos - que o que escrevem é directamente o resultado do temperamento. A obra é um ser objectivo e não é o ser representativo da integralidade física e psicológica do artista; a obra está ali como um ser objectivo que se separa do autor, seja ele Van Gogh, Ravel, Celan, Schumann, Pound, Aquilino ou Max Frisch... Julgar que a literatura é o resultado do temperamento é sujeitar o resultado literário à subjectividade do artista, e só à sua subjectividade. Tudo depende dela, subjectividade, e dele, artista. É lógico que tudo dependa dele, autor: é ele o responsável, é ele que escolhe, é ele que se serve dos códigos ou que os modifica. A "doença" esquizóide seria a mais perturbadora da obra, por ser a que mais a classificaria, "au corps défendant de l'artiste", de "art brut" em permanência. Pessoa, no dizer de Óscar Lopes, teria uma "escrita esquizóide" e Aquilino uma "escrita anti-esquizóide"... São termos que classificam a literatura segundo o temperamento, por se julgar que Pessoa-esquizóide faz poesia/prosa-esquizóide. E o contrário para Aquilino. Só que os temperamentos não são escolha artística, se bem que, é certo, o temperamento conte para o resultado final da obra. Mas este resultado final é o produto de outros móveis. O facto de que muitos autores tenham caído na loucura - Schumann, Ezra Pound, Hölderlin... quantos! - significará que os temperamentos não normalizados tenham uma tendência para a expressão artística... e para a loucura. Não quer dizer que foi a loucura que fez a obra como não quer dizer que a droga tenha feito Charlie Parker, Coltrane, Jimi Hendrix... e muitos outros. Ou que só os loucos são artistas... ou os esquizóides. Por outro lado, muito esquizóide pode produzir uma literatura sem qualquer efeito directo do seu desfazamento. Ainda por outro lado: Aquilino não é, psicologicamente falando, isento de qualquer problemática mental da ordem do psicológico. A arte escolhida por Aquilino tem uma intervenção menor do "dedans", isso si. A obra, de qualquer maneira, lê-se à parte. Sade não é um abusador sexual. A sua literatura é sobre a relação entre a culpabilidade, a liberdade de acção sexual e o que a sexualidade pressupõe como aparelho repressivo quando é reprimida. Em contrapartida - não na ficção, onde esta relação é mais complexa, como acabo de propor -, os autores identificam-se racionalmente com o que escrevem. É o caso de Aquilino neste romance - e de Pessoa -, na medida em que faz entrar as suas concepções nas personagens que se exprimem com um raciocínio muito elaborado - e que é elaborado por Aquilino. As páginas dedicadas ao julgamento são de alto nível literário e intelectual.  Aquilino permanece na ordem ficcional, embora o fio da ficção se dirija para a explicação literária, voluntariamente, segundo a necessidade do autor. Por outro lado, é na obra ensaística que Aquilino exprime a sua relação às ideias, de modo mais explicativo. No registo do ensaio-prosa explicativa o que resulta é a representação do pensamento do autor. E, neste caso, estamos ainda mais afastados da "doença" ou do temperamento eventual de Aquilino, da tal "doença" que contaminaria a literatura. Um exemplo: as ideias de Céline, nos seus ensaios anti-semitas, estão longe de qualquer desculpa que seria a de se atribuir ao autor um qualquer grau de "doença" que o impossibilitaria de conceber as ideias de outro mado, e que o tornaria irresponsável. Aqui, as suas ideias são uma consequência do que, racionalmente, Céline pensou. O resultado é uma objectivação e é ela que conta. No caso de "art brut" o que conta é o que vemos, como fenómeno psiquiátrico próximo do artístico. É claro que os psicólogos e os psiquiatras - Prinzhorn entre muitos - quiseram fazer uma análise do que era e é a produção artística: como se chega à necessidade de expressão; quais são os processos subjectivos de criação; subjectivos e psicológicos. Mas a literatura não é só uma análise psicológica, psicanalítica ou só linguística... É o complexo final expressivo - nos melhores casos - daquilo que conscientemente se realiza. Não conscientemente no registo mais banal; mas conscientemente na sua finalidade como expressão. 
O problema da loucura e da arte, ou a sua relação, nasceu com os pré-românticos e atravessou o século dezanove até hoje, segundo as participações posteriores da psicologia, da psiquiatria e da psicanálise... e de outras ciências, entre elas, as neurociências... Antes do romantismo, a ligação entre a obra e o autor ou autora não se expõe do mesmo modo. Era raro sentir-se dizer que tal artista (escritor, neste caso) tivesse enlouquecido. Voltaire, Shakespeare, Montaigne, Racine, Rabelais, Dante, António Vieira, Sófocles... nomes da literatura onde o racionalismo - e a normalidade (!?!) - se exercitava com plena consciência dos autores. Um outro tipo de artista, e de relação com as ciências do psíquico, nasce a partir do romantismo. O que se pede ao artista é que faça obra com a sua consciência mas que esta seja completada pelos aspectos mais íntimos, obscuros e irracionais, aqueles aspectos que, até aí, não eram tomados em consideração - para a realização da obra de arte. O romantismo veio abrir as válvulas a esta parte importante do indivíduo, e não completamente ignorada, mas que não se utilizava nas artes. As artes beneficiaram desta abertura. O resultado foi uma maior complexidade que, de qualquer modo, seria muito mais o resultado de um mundo mais complexificado, do que directamente de uma maior liberdade humana na concepção da obra de arte. O avanço científico veio ajudar a clarificar o pensamento e a intervenção humana na literatura. A maior liberdade também contribuiu para a nova literatura, é evidente, mas esta nova concepção melhorou - aumentou - abriu-se pela força da complexificação do social e da sua análise científica. O que era considerado desnecessário, a partir do romantismo torna-se um elemento interessante e fundamental a juntar à obra expressiva. A obra ganhou uma dupla autonomia: em relação ao corpo social, pelo abandono da auto-censura, e pela nova concepção estética que considerava os elementos "perturbantes" do psíquico (do dedans) a juntar ao racional de maneira a obter um resultado artístico mais apropriado e verdadeiro, mas verdadeiro da sua autonomia. O que é verdadeiro é o ser autónomo, não o que ele escreve. Não me interessa saber se o artista é verdadeiro e sincero na sua declaração ficcional ou autobiográfica. O resultado literário não tem valor moral em si, e na ficção: apesar de que, cada leitor possa avaliar o que está escrito à luz da moral... ou de qualquer outro ângulo. Na ficção, digo bem. 
Aquilino situa-se na historicidade "ancien régime" da literatura, na definição da literatura segundo um modelo unicamente racional, ou preponderantemente racional. A sua participação como autor é unicamente admitida como "au-dehors". No interior de Aquilino está o seu segredo; a sua vida privada. Quer dizer que a literatura saiu do domínio público para abranger o domínio privado; e no privado entraram as razões mais diversas. A intimidade passou à literatura. Gide (1869-1951) será o exemplo, contemporâneo de Aquilino (1885-1963), que se colocará nos antípodas de Aquilino, muito mais do que Pessoa. Aquilino e Pessoa pertencem também à mesma época. A que Óscar Lopes se quer referir é a uma outra questão: à literatura soi-disant interiorizada de Pessoa e à literatura soli-disant exteriorizada de Aquilino. 
Para falar de intimidade: Aquilino trata da vida das personagens segundo as regras consuetudinárias. Não há possibilidade de sair das convenções do que se relata: a vida íntima não aparece, neste romance. Na bibliografia de Aquilino, é raro ler-se qualquer fenómeno que escape às "leis da natureza". E a como essas leis foram estabelecidas. 
Uma nota curiosa, em relação à literatura "artista" que se faz actualmente em português e em Portugal (não só): o uso abusivo do pretérito-mais-que-perfeito na ficção. Aquilino usa-o normalmente; faz parte da sua narração, sem procurar preciosismos. A literatura "artista" e a outra, a industrial pós-industrial comercial, abusam deste pseudo-preciosismo. O mesmo se poderá dizer do uso de conseguir + um outro verbo: um caso, p. 262: "conseguira erguer". Aquilino usa muito pouco desta forma estereotipada da escrita portuguesa actual.
Uma outra nota, não curiosa esta: a literatura "artista" que tentei definir em vários artigos (e, antes de mim, muitos o fizeram, com outras nuances e outros conceitos...) também pertence, hoje, ao mesmo mundo industrial ou pós-industrial em que estamos todos, escritores e leitores. Só que a literatura autónoma tenta fugir às (das) pressões dos mercados, fazendo, por isso, literatura autónoma; chamei de literatura industrial ou pós-industrial propriamente dita (mas sempre de literatura) a que segue as leis dos mercados, perdendo a autonomia (cf. Bourdieu, entre muitos) e garantindo a maior receita possível e a melhor integração mental ao sistema que explora a rede cultural, e a interferência entre o cultural e o mental repressivo. 
O romance "Quando os lobos uivam" é um ataque à magistratura, feroz ataque; um exemplo, p.262: "Um dos adjuntos, Adalberto Fernandes, reunia em si o tipo do magarefe, alto, membrudo, encarniçado de tez, e até no manejo do cutelo quando se tratava de aplicar a lei. No tempo da forca era homem para, à falta de carrasco, puxar a corda. Quando interpretava o código, tendia para a pejorativa. Punha certa prosápia nas suas sentenças, de resto, transcritas nas gazetas da especialidade e muito apreciadas no Conselho. Corria que a sua vida particular era desastrosa, a mulher ninfomaníaca e perdulária; dois filhos valdevinos; uma filha que não regulava bem do juízo. Por isso, seria fera exacerbada." Entre  muitos exemplos possíveis. Aquilino "perde a cabeça", ataca o homem na sua vida privada (ataque ad hominem) - se se pode identificar o juíz em questão; se não é pura imaginação! A prosa de Aquilino é um processo voluntário que coloca o leitor, orientado pela mesma necessidade de sair do salazarismo, na mesma linha. Daí que tenha chamado a este romance um romance de consolação mental. Por outro lado, a coragem cívica de Aquilino é evidente, sobretudo a partir dos capítulos sobre o julgamento do "Plenário". É notória a função profanadora da literatura, num escritor que alia a mestria da língua na sua relação entre os actos e o pensamento.
A capacidade descritiva é enorme, em Aquilino; uma citação, entre tantas possíveis, p.258: "Barbeara-se (sic, pretérito-mais-que-perfeito, raro, como disse) na Rua do Sol com um fígaro de balandrau, que se lhe fartara (outro) de puxar pela ponta do nariz para escanhoar o lábio superior em que as comissuras cavavam ravinas difíceis de chegar ao fundo. Acima das maçãs do rosto, subindo para as capelas dos olhos, guardava, escapo à navalha, um matiço virgem, com cerdas negras, zincadas, e das orelhas saíam-lhe tufos tão densos que bastgariam para pincéis. Embora as sobrancelhas lhe ensilvassem as arcadas, não projectavam sombra suficiente, para escurecer as pupilas, tão estranhamente vivas que a sua expressão ordinária era a do gato assanhado. Serrano aparentemente tímido, o chão que pisava era seu. [...]". E por aí adiante. Outra questão: Aquilino gosta da caça e não abdica do gozo do caçador, ao ponto de falar na dor dos animais com um certo prazer; ainda mais uma vez a natureza e a natureza do próprio homem em funcionamento; p.250: "Sem perda de tempo, meteu a espingarda à cara e puxou o gatilho. Chapéu, o tiro moita, e, como o lobo lhe desse a impressão de retesar-se nos jarretes para investir, ficou assustado e sem pinga de sangue. Se a fera dava o pulo?! Desandou, fingindo não o ver, como as vezes que avistava uma lebre na cama e "não trazia com que lhe fazer bem". Quando se apanhou na limpança, despediu a chamar gente que andava ali perto numa estorgada. Vieram todos, armados de gadanhas e sacholas, com seus cachorros. Entretanto, os rafeiros não tinham desamarrado do barbeito onde se escondia o lobo: béu! béu!" E mais longe, P251: "O bicho deu um ronco, mordeu a pedra, e estacou a arruaçar. Uma terceira bateu-lhe na espádua. Depois, como se lhes afigurasse improcedente o tiroteio assim mandado e o lobo num dado momento pudesse recobrar-se e fugir, procuraram atingi-lo nas pernas e quebrar-lhas. Para aí dirigiram a pontaria. Ao ser tocado numa das mãos, dorido, o lobo ergueu a fronte com o ar altaneiro de quem vai carregar os agressores. Mas os podengos, pela retaguarda, atiraram-se a ele. Para os escorraçar teve de voltar-se. [...] Um deles conseguiu acertar-lhe com um calhau acima do olho, e logo a seguir com outro em plena testa. O lobo cambaleou, endireitou-se, e num último arranco caiu sobre a matilha uivando. Mas o obriga veio com uma pedra às mãos ambas e deixou-lha cair em cima. A fraga resvalou-lhe pela espádua ao tempo que filava um cão pelo cachaço. Era o podengo predilecto do Obriga e este, tirando o gadanho das mãos dum dos estorgadores, cresceu para o lobo. Tenteando-lhe o golpe, descarregou-o com quanta força tinha. E a fera desabou como um roble."
Tolstoi está por perto.
O facto de Aquilino não se impor como um formalista literário - preocupado pelo que o aspecto formal da literatura distingue e inova - não quer dizer que não tenha obtido um resultado semelhante, que é imposto pelo processo que parece conservador dos "actos de linguagem" que utiliza, tal o classicismo e o trabalho artesanal, constituído de forma a parecer "perfeita" (não há nenhuma possível perfeição literária) a linguagem do artesão escritor, linguagem que vem da influência dos clássicos e do ensino seminarista, da constituição da frase de intuito religioso, assim como da própria estrutura religiosa do mental de Aquilino Ribeiro, um gnóstico racional de quem praticou o latim. A língua latina encontra-se atrás da língua portuguesa, a lógica latina deu a escrita aquiliniana que só não tem veia modernista por ser um escritor profissional que se inscreve num mundo psicologicamentre atrasado - Portugal - em relação ao mundo urbanoonde se criaram (se fizeram) as modernidades. Aquilino sabe que haveria incongruência entre estar e escrever em português e propor uma modernidade linguística ou social. O abismo não lhe permiter entrar em confronto com as modernidades, tal como Pessoa concebeu, embora artificialmente - por não ter e não estar no território apropriado à função literária da invenção de qualquer modernidade. Pessoa criou mais incongruência modernista do que uma modernidade. Quis pertencer a uma (sua) modernidade quando se aparelhou contraditoriamente com sebastianismos, quintos impérios e mensagens... A grande vantagem de Pessoa está no facto de ter sido "artista" e, como tal, ter entrado na formação de um caos que - esse, sim - estaria no centro das modernidades. Por ter criado a multiplicação da personalidade que estava nas modernidades e na actuação artista da sua época. Indirectamente, Pessoa entrou pelas incongruências na literatura moderna que Aquilino não podia conceber por absurdidade, como disse acima, entre o uso da uma língua arcaica que estaria em relação ao mental da população - e mesmo em relação ao mental da população mais sabedora e culta - e o país onde se encontrava, depois de ter estado pela França onde poderia entrar - e com certeza entrou, ao nível do conhecimento literário - em contacto com as modernidades; não com todas, não com as mais abertas, mas com as mais convencionais, como a de Valéry, por exemplo. Se se pode dizer que Valéry representou qualquer aspecto das modernidades do começo do século vinte. No seu sentido mais convencional e largo, Valéry representou uma modernidade conservadora, na medida em que nem todas as modernidades foram autónomas. Aquilino, como Guimarães Rosa, não se inscreveu nesta tensão entre a língua e o movimento especulativo urbano que facilitou a modernidade, como fez John dos Passos, por exemplo. Estava preso ao mundo caótico, não por ser rural mas por utilizar uma linguagem arcaica e doméstica, no sentido da domesticidade e da relação entre servos e patrões, que ainda encontramos nos livros e no mental da escrita de Agustina Bessa-Luís, onde os temperamentos parecem naturais - Aquilino buscava mostrar esta naturalidade: uma linha de fuga na qual Agustina se inscreve como sucessora não de Aquilino mas da linguagem elitista que quer dar-nos a entender que intui - e que descreve pela pseudo-intuição - a pasmaceira portuguesa. Pasmaceira ou não, a literatura que resulta é a correspondente ao mental "agustinano" e à sua relação com o social, liguistica e socialmente falando. 
À suivre.