vendredi 6 janvier 2012

Harold Bloom - Algumas noções sobre Bloom e o cânone ocidental - O uso da língua e a sua relação com os leitores 20

Modificado a 12 de Janeiro de 2012.
O facto de ter consciência da realidade politico-social não deveria afastar os críticos da análise estética. A realidade social, política, psicanalítica… foram e são realidades de análise que Shakespeare, por exemplo, não podia utilizar como hoje, na medida em que não havia, na época, o mesmo desenvolvimento das ideias sobre estes assuntos. É uma evidência enunciar-se a relação entre o cânone e o mundo deste modo. Bloom não aceita outras perspectivas críticas, a não ser a perspectiva estética, embora saiba que outras existem, ainda antes de serem formuladas pelos seus adversários.
A estética, fora excepções - que foram enormes, nas suas consequências -, esteve sempre do lado da independência dos artistas, embora os artistas não tenham estado sempre do lado da independência artística. E isto Bloom não especifica. Muitos artistas foram dependentes de sistemas ou de ideologias. O facto de termos conhecimento disso não diminui em si o trabalho do crítico, nem o exame da obra pelo seu aspecto estético.
Poderá apreciar-se o estético (ou o anti-estético) de uma obra sem o relacionar com os outros elementos que os actos de linguagem constituem?
Pode dizer-se, para seguir Harold Bloom e outros críticos, que a estética engloba os outros aspectos, ou que, pelo menos, está rodeada pelos aspectos mais diversos do desenvolvimento e do envolvimento social que a linguagem representa.
O estético pode representar (ou representou) em si, por processos desviados, um critério político. Esteve ou está ainda de tal maneira ligado à política que se representa esteticamente politizado como uma realidade da expressão artística. Aqui entram em vigor os critérios de independência e a relação entre independência e regimes políticos, entre artistas e o que "estética" quer dizer.
O que esteticamente foi pedido aos artistas soviéticos (ou americanos, por razões diversas e dentro de esquemas de dependência de origem diversa; falarei neste assunto mais tarde) estava directamente relacionado com o político, com a estetização do político e com da politização da estética. Acrescento que o erro vem da estética escolhida, por um lado, ou da política, por outro lado, que exigiu dos artistas a subjugação das expressões aos critérios da funcionalidade e da instrumentalização política.
Harold Bloom responde com os valores estéticos para defender as expressões da invasão política ou ideológica, esta última sob vários aspectos, sem ver que os actos de linguagem não abstraem dos fenómenos sociais que rodeiam a linguagem, a transmissão de ideias e de conceitos.
Além disso, a arte é uma problemática, para Bloom e para os seus adversários. Mas Harold Bloom só a considera problemática segundo o ponto de vista do estético, e este dentro dos limites dos cânones. A estética para ser (sempre) só estética terá que limitar-se, embora todos saibamos – e Bloom também – que os critérios de estética como dos seus satélites - critérios e conceitos de política, de social, de individualidade, etc… e muitos outros -, variaram com as épocas.
A arte é uma problemática sobretudo quando sai do puro esteticismo, por estar em relação permanente com outros conceitos e com a evolução deles, com outras realidades e factores que mudam, que alteram a obra e os julgamentos que poderão fazer-se sobre ela. Neste caso, será natural que o cânone ocidental sofra e continue a sofrer grandes modificações, conforme as épocas. O próprio Shakespeare não pertenceu sempre da mesma maneira ao cânone ocidental tal como Bloom o conceptualiza no seu livro sobre o Cânone Ocidental, "The Western Canon. The Book of the Ages", 1996, Harcourt Brace & Co. .
A arte torna-se controversa fora do estético, ou melhor, quando a questão estética se confronta com os conceitos "exteriores" à estética. Repito: Poderá a estética ser estudada sem a relação da obra com os factores que a criaram?
A obra é sobretudo de carácter individual, diz Bloom. Estou de acordo. O indivíduo - ou a individualidade - é a base da formação de uma legitimidade e de uma pretensão à obra de arte. Mas uma obra concebida em 1800 não tem as mesmas características de uma obra criada em 1900, por maior que seja a individualidade.
É neste sentido que digo que o período da estética acabou e que se iniciou, desde há muitos anos, o período anti-estético, que não é por definição contra o cânone ocidental, no seu sentido mais largo de valorização da obra pelos seus aspectos mais canonicamente formais e individuais, mas que se serve dele para maior confronto entre realidades artísticas e realidades sociais; o termo "social" aqui empregado no sentido mais largo.
Se houvesse um só limite estético às obras artísticas, estaríamos numa repetição que as mudanças socio-culturais não permitem. Ou por outra, se se julgasse que as obras artísticas só contivessem elementos relacionados directamente com a estética, definida segundo Harold Bloom, estaríamos a limitar as obras e os conceitos à volta delas.
É na exteriorização da estética, ou seja, no confronto entre estética (ou anti-estética) e o social, entre forma e expressão - codificada ou não -, entre expressão e actos de linguagem que se inicia a controvérsia estética, mesmo esteticamente falando. Bloom quer proteger as obras com a própria estética, como ele a define. Com o próprio aparelho estético imutável e conservador.
A estética (ou a anti-estética) evoluiu. Os critérios, as definições, os conceitos tornaram-se mais complexos, desde o início do tratamento estético das obras e delas como obras de arte até aos dias de hoje. Os códigos, os cânones e os critérios de expressão – os campos artísticos – alargaram-se. O próprio cânone abriu-se. A relação entre o cânone e o religioso, também. A relação entre o eterno, o imortal, o genial, o litúrgico alteraram-se.
À suivre.