lundi 27 juin 2011

Uma Viagem à Índia - Gonçalo M. Tavares - O uso da língua e a sua relação com os leitores 4

Modificado a 16 de Janeiro de 2013.
"Uma Viagem à Índia" obteve da parte da crítica um voto unânime. Quererá isto dizer que "Os Lusíadas", Camões e o nacional jogam ainda muito no mental português, a tal ponto que os editores procuraram um prefácio do autor mais ligado à crítica da mística história portuguesa, desde o passado à actualidade? O prefácio parece-me superficial e unicamente de intuito comercial. A publicação do livro com um prefácio institucional de Eduardo Lourenço facilitaria a crítica posterior, pagaria o custo de produção e aumentaria as vendas. O prefácio assinado por E.L. estabelece uma ponte entre o que é o livro e a sua leitura, o que é próprio dos prefácios. Eduardo Lourenço coloca "Uma Viagem à Índia" em relação com a obra epopaica de Camões e na esfera da civilização grega, como não podia deixar de ser, e em relação com os destinos (sic) da Europa actual. É o mundo do crítico Eduardo Lourenço que, portanto, vê na "Uma Viagem à Índia" mais um resultado destas condições em acção, embora constate que a ironia do autor destrói os mitos implícitos na justificação da Grécia de Homero. O paralelo com a Grécia parece lícito na medida em que G.M.T. propõe "Os Lusíadas" como base formal - os mesmos cantos e as mesmas estâncias por canto -, evocando a epopeia e, por outro lado, o aspecto mítico português é chamado com a viagem à Índia, embora o paralelo seja só fundamentalmente formal. Outros paralelos entre o texto de G.M.T. e o de Camões são escassos. Resta a "viagem mítica à Índia". Et encore! A visão panorâmica de Eduardo Lourenço precisa de mitos, ainda que derrocados, para fundar o seu pensamento crítico; entretanto, o mundo em geral e o mundo desta ficção de Gonçalo M. Tavares não se coadunam nem com as epopeias nem com as viagens utópicas à procura do êxtase mítico ou místico. O mundo em que vivemos está definitivamente fora das visões míticas. O ocidente de Eduardo Lourenço inscreve-se ainda no conceito de "decadência" da Europa (cf. Spengler, Nordau, Nietzsche...), da Europa actual, sofrendo com o estado que ele julga de um êxtase vazio ocidental. O facto de assim se inscrever, impede-o de ver outros problemas não só na Europa e no resto do mundo (e no ocidente) como também no livro de Gonçalo M. Tavares. Não merecemos mais a Grécia! O mundo de Gonçalo M. Tavares inscreve-se no terreno distópico, enquanto que a análise de Eduardo Lourenço se instala no campo das utopias mentais, sobretudo da utopia mental portuguesa que vem da época de ouro dos descobrimentos até à "decadência" actual. Neste sentido, a obra de Gonçalo M. Tavares inscreve-se na "decadência", na perda dos valores que a Índia representava e que já não representa. A Índia, ou pelo menos, a viagem à Índia é ainda nossa. E.L. inscreve a obra de G.M.T. no mundo que ele mais deseja qualificar; E.L. vai buscar os mitos para "ler" a obra. E por que razão? Pelo facto de que a estrutura de "Os Lusíadas" ter sido chamada pelo autor? Sem essa estrutura não haveria que assinalar a obra por outros motivos? Ou será pelo facto da obra se inscrever também no pessimismo que considera a Europa um continente cultural velho, envelhecido, sem esperança de melhoria - a idade de ouro teria acabado - e em "decadência"? Será que Gonçalo M. Tavares se inscreve no pessimismo de que E.L. fala? O pessimismo de G.M.T. será só o de Bloom, personagem que foi à procura da Índia da grande sabedoria e que só encontrou falsificações, ou será também o do autor, que se inscreve na crise europeia? Crise não só de expressão cultural mas da sociedade... A visão crítica de E.L. é orientada pela mitologia, como disse, pelo mítico português iniciador da Índia como viagem a fazer. O prefaciador estabeleceu um paralelo entre Camões e Joyce, por um lado (Bloom e Mary; não há outra ligação explícita a Joyce, a não ser no comportamento "áspero" de Bloom) e G.M.T., pelo outro. O paralelo estabelece-se por haver da parte de G.M.T. uma reflexão sobre uma "viagem à Índia", desde o Gama até hoje? Terá, além de Camões, G.M.T. pensado na necessidade da realização de uma viagem à Índia como descoberta fundamental da própria personalidade? Os hippies abriram o caminho mítico e místico para a Índia nos tempos próximos; ainda hoje a Índia representa essa "mansidão mística" a tal ponto que a miséria se inscreve na mística - para quem a quiser inscrever nela -, em vez de verificar, com Naipaul, uma das mais impressionantes misérias urbanas hoje sem cultura sem religião e sem mística, a não ser a idealizada na "santidade" da própria miséria. A miséria não se coaduna com o místico. Ou haverá ainda uma mística, para alguns, da miséria absoluta? Creio bem que sim. E.L. foge às questões principais que o texto implica; para isso, procede por extremos; diz o crítico: "Excursão mística? Os deuses não são o assunto de Bloom. Ou do seu criador: … Contudo é a sua inexistência mesma quem comunica a todas as aventuras ao rés do real mais banal, e só por isso sublime, uma dimensão irónica e transcendentemente sarcástica, música de fundo que articula todas as visões..."(p. 18 e 19). O banal e o sublime... E noutro passo: "ao mesmo tempo trivial e sublime"... E.L. não arrisca uma análise da obra na sua vastidão, para além do paralelo com Camões: fica-se pela mitologia, pelo mítico português - iniciado neste caso por Camões -, pelo trivial e pelo sublime da obra de G.M.T.. A visão crítica de E.L. é anacrónica na medida em que, nenhum texto se pode inscrever, hoje, mesmo ironicamente, nos pretextos de uma epopeia: faltam-lhe os termos, o vivido, o heróico, o próprio mítico... A obra de G.M.T. é a antítese da epopeia: na epopeia, o macroscópico, aqui o microscópico; a acção epopaica é sistematicamente seguida como uma irremediável notícia a transmitir do já sucedido e cujo autor é impotente para modificar a História. A intenção do autor épico é a de narrar os feitos heróicos já realizados por uma comunidade, um grupo, uma nação. Aqui, G.M.T. reduz o texto a uma notícia de almanaque, à certeza e à justeza do silogismo e da sentença de que se socorre em permanência. O que substitui o trabalho dos deuses e de Deus está na Natureza e na consciência actual do autor, viajante ele próprio, auxiliado pela visão ultimista: aquele que vai mais longe no raciocínio é aquele que vê mais e melhor (A confrontar com uma certa filosofia do século XX, como a de Heidegger, que procura o sempre mais além e profundo). No ver mais e melhor surge a moral, o belo, o bom e o justo da obra. Estamos diante de um texto conservador, que se serve da estética do "bom, do belo e do justo", apesar do crime passional de Bloom e do crime rasteiro da prostituta, feito pelo mesmo Bloom, num Canto IX antítese à ilha dos amores de "Os Lusíadas". Afinal a censura salazarista atingiu ainda o autor (?!), na medida em que este transforma o bacanal dionisíaco do Canto IX numa festa "escandalosa", onde a intervenção moralizante é possível, certo de que os dois mil anos de cristandade fundaram a mentalidade de que somos hoje herdeiros. Um facto estranho é o de o mundo de G.M.T. se subordinar só ao calendário dos dois mil anos desde Cristo, sem ter em conta nem factos nem datas anteriores. O seu calendário é o da cristandade. Outra vez o socorro mental de Camões, que inscreveu a sua obra na "religião cristã e na modernidade quinhentista das conquistas e descobertas cristãs"? Daí que E.L. fale "… da viagem que inventámos e que é sempre, ao fim e ao cabo, a não-viagem que nós próprios somos. Mais longe na mesma p.15: "A nossa fabulosa aventura foi sempre sem sujeito como os gregos já sabiam" (e como as epopeias professsavam, acrescento eu). Mas agora navegamos pela primeira vez e a sério no mar do nosso sublime, ou apenas trivial e universal, anonimato." Noutro passo, p. 15 ainda: "Para nós, todas as viagens são viagens à Índia". (os sublinhados são meus). E.L. quer dentro da história portuguesa aqueles que se inserem neste "nós" permanente do seu prefácio. Quem são estes "nós". Por que razão terão os portugueses actuais de se verem no "nós" lourenciano? A continuidade histórica implica conivência com o passado? Ou a sua negação? Não se poderá imaginar os portugueses distantes da história das conquistas em nome da expansão e da religião? Muitas outras características foram aquelas que definiram as epopeias e que hoje não se enquadram no social que vivemos. O inventário destas características não pode ser feito aqui. (Cf. Bakhtine). Os termos, a língua, a relação ao conhecimento global impedem-nos de pensar na Grécia como Eduardo Lourenço ainda a pensa, assim como a Índia. E.L. quer dignificar a obra na medida em que não encontra nada que signifique o estar simplesmente a fazer literatura, de qualidade ou não, mas bem o facto de querer intervir no quadro mítico-histórico a partir da Grécia de Homero. E assim põe de lado as realidades de hoje, as realidades literárias de hoje e a sua divergência ou conivência - depende dos casos -, da obra em relação aos vários comércios, aos quais um prefácio assinado por Eduardo Lourenço não escapa, sobretudo se pouco for dito a propósito da obra. A relação inadequada em relação ao texto, parece-me uma relação bem adequada, noutro aspecto, por haver entre o prefaciador e o autor uma ligação "comercial" evidente. Fazendo só o elogio - e reforçado - o prefaciador facilita a leitura de prestígio e a venda da obra, sobretudo se a coloca nos píncaros do sublime e da já grande literatura, apesar de não nos dizer nada sobre o que são o sublime e a grande literatura. São noções já adquiridas? De facto, são já adquiridas e aqui confirmadas pelo prestígio de Eduardo Lourenço. Para isso vão-se buscar os deuses, Deus e a mítica Índia de Camões e de "Os Lusíadas" até Homero e a Grécia da antiguidade. Outra noção: O ponto de vista de Camões é muito "naïf", para a época; acrescento que, hoje, ainda o é mais. O espírito da epopeia é cego, unilateral, egoísta, colonial... (neste caso). Hoje a leitura do Camões epopaico não pode ser só nacionalista e heróico. A obra tem englobada a colonização, a conquista, a dominação... e os factos heróicos, e só os heróicos, na sua banalidade e criminalidade de conquista. O mundo descrito por Camões não é o mundo individual dos viajantes isolados; é o mundo épico dos portugueses como comunidade escolhida para servir a cristandade. A língua é confessora, diz o que os actos de linguagem querem dizer. Nada mais normal de que a viagem do Bloom de G.M.T. não tenha nada de heróico, nem na pele de Bloom nem na do narrador. O prefácio de E.L. não tem muito a ver com a viagem à Índia de G.M.T., nem a obra tem a ver com a mística portuguesa que E.L. persegue desde sempre. A Índia espiritual apaga os "defeitos" do ocidente? Afinal a Índia corrige há séculos, desde a viagem do Gama, o imaginário português (e hippie), os partidários da paz universal "budista e nirvana". Esquece-se (ou sabe, embora sem o ter escrito nesta obra?) G.M.T. de que a própria Índia se mantém como o país da pobreza mais escandalosa, numa relação social em que o espiritual e o religioso colaboram com e para o repressivo das castas, numa partilha que favorece este estado de facto. Que as classes média e superior, como as castas privilegiadas, não entram em contacto com as castas desvalorizadas - os intocáveis - e com a pobreza dos Slums. Entre o Gama e Bloom e a população indiana está um mundo que os separa. Entre a viagem do Gama e a do Bloom (seja ele qual Bloom for) está uma distância nada paradisíaca. A Índia assusta, tal a miséria! Não há nenhuma espiritualidade indiana que cubra a miséria. No Canto VI, estância 5: a viagem interior, os caminhos: Chegar à Índia é, para G.M.T., um acontecimento. Não se chega à Índia sem exame prévio, sem uma aprendizagem lenta (estância 5, Canto VI). Chegar (ir) à Índia é também encontrar as mitologias, o regresso ao antigo, à relação entre as mitologias e os "instintos humanos mais fortes" (estância 13, Canto VI). O autor procura o mito sem saber como apresentá-lo. A compreensão e o conhecimento diminuíram a totalidade do homem. O "bom selvagem" do Gama estaria bem mais perto da Índia "verdadeira" do que Bloom? Ao ponto de o autor negar o conhecimento actual sobre o mar: "nada sabem sobre o mar o cientista ou o filósofo" (estância 16, Canto VI). Perdeu-se o conhecimento do mar? É inferior ao saber quinhentista? Até ao final do Canto I, lemos um "divertimento", piscando o autor-narrador o olho a vários textos e paratextos que são supostos estarem atrás do que lemos; nada há, em todo o caso, de epopaico, apesar da escrita tender a seguir alguns tiques de "Os Lusíadas", (estância 44, Canto I). De epopaico haverá uma parte do estilo, no entanto, segundo as regras do início de qualquer epopeia quinhentista. Diz o autor a propósito de epopeia: "Falaremos nesta epopeia apenas de um homem (e não de um nem de todos os heróis nacionais, acrescento eu): Bloom. (estância 44, Canto I) Nada é, de facto, epopaico, a não ser o modelo que lhe está por trás: "Os Lusíadas", na sua estrutura mais simples, a obediência ao mesmo número de estâncias por canto a ao mesmo número de cantos. Se há uma história literária (não epopaica) é a da continuação do Ulisses-Joyce (esta sem viagem à Índia) e não a do Gama-Camões, na maneira de resolver, por uma escrita actual, a relação com o passado. A partida da viagem é de Lisboa via Londres, como poderia ser de qualquer outro lugar, embora Lisboa aproxime mais a viagem de G.M.T. da descrita por Camões na sua obra. Não é uma cópia nem um pastiche; a obra de Camões serve-lhe de canevas, sem que se descubra o motivo. Para quê reviver uma epopeia "sem população e sem herói(s)", nos dias de hoje? Blague do autor em relação ao sério da epopeia? Ou enracinamento no nacional? Será um meio de fundar a obra naquele que muitos consideram o escritor mais representativo de sempre da língua portuguesa? Haverá nisto a ideia de uma comemoração nacional? Pelo menos, um crítico viu na obra de G.M.T. "um desafio à grande obra de Camões". "Eis que" é uma das expressões mais utilizadas pelo autor, expressão de façanha, do facto irremediável; a História sucedeu assim... Aqui entra uma noção de "destino" (como a "Natureza", muito citada), apesar de o autor não a fundamentar, mas que está por trás de todo o espírito epopaico. O "destino" tem a força do irremediável, do jogo feito, da marca de cada um. O uso do "eis que" aproxima o texto do lado bucólico e irremediável, já o disse, do "cinquecento", um aspecto eclogal que não está na virilidade de Camões-"Os Lusíadas". Na "Uma Viagem à Índia" falta o factor sexual luxuriante, substituído pelo desastre da compra dos corpos prostituídos e apresentados pelo autor da maneira mais tragico-puritana no Canto IX, coincidindo com a festa bacanal do mesmo Canto de "Os Lusíadas". O autor fala em animalidade flibusteira e em erotismo de bordel. Não em qualquer forma de erotismo, ao contrário da de Camões que descreve, como sabemos, no Canto IX, uma festa erótica cuja leitura a censura salazarista proibia! Qual é, então, a finalidade de ir ao encontro de Camões e da epopeia? Continuar a linha Homero-Camões-Joyce-Gonçalo M. Tavares-Ulisses-Gama-Bloom e outra vez Bloom? O que é certo é que o ser "feliz" não é uma temática do Joyce, nem do Homero, nem do Camões. Como e por que razão evocá-la aqui: "Será que um destes homens - pensou Bloom - conhece um outro mundo, com o mesmo nome mas mais feliz?" Um mundo mais feliz: a utopia de Gonçalo M. Tavares... G.M.T. não segue uma ideologia, por ter como princípio aceite o facto de que a moral cristã é uma base histórica e ideológica fundada há dois mil anos e secularizada nas democracias ocidentais actuais. O autor faz contas a partir do início da era cristã. Antes disso, não há mundos nem datas! Se a obra "Os Lusíadas" é naïf, "Uma Viagem à Índia" ainda o é mais, na medida em que a epopeia quinhentista tem as suas bases no maravilhoso heróico, sem que esta viagem à Índia possa manter tal espírito sem um anacronismo, que não foi procurado pelo autor. Estamos então num vazio, num esquema de sentenças e "verdades" moralizantes. Em todo o caso, a narração é sobre um passado e, neste sentido, ocupa o estilo narrativo de uma certa epopeia, como um passado inapelável por já realizado, embora de modo prosaico e pragmático ao nível do "ver". "Não falemos então de um povo" mas do "nosso herói". E aqui começa um jogo sem angústia (Angst) nem da parte do autor nem das personagens que pertencem mais a uma história de viajantes, por via aérea – a modernidade impõe-se - do que a uma realidade epopaica da qual o autor estará distante por duas razões: a) por ter de estar, na medida em que as epopeias, como disse, não são hoje obra possível e b) por não querer entrar nelas, para não cair na cópia obsoleta ou anacrónica. Onde antes havia "povo" e "heróis", hoje há indústrias. Ou seja, ontem havia a epopeia correspondente a Alexandre o Grande, hoje há o "comércio livreiro", apesar de ter em conta o protótipo de "Os Lusíadas". O humor não falta, humor aventureiro um pouco à maneira de Emilio Salgari, mesmo fora da Índia desejada, durante a passagem de Bloom por Londres e Paris. Outras vezes aproxima-se de Georges Simenon: Canto X, estância 149: "Procurou o Espírito na viagem à Índia/encontrou a matéria que já conhecia./Nada agora o faz hesitar; animais bem-comportados/e agarrados por coleiras a árvores ladram/quando ele passa./Os sapatos avançam, fuma um cigarro,/entra num café e pede um copo de vinho". Leia-se ainda a estância seguinte. Nisto tem razão Eduardo Lourenço, nesta referência a vários livros do imaginário dos leitores. Outras vezes, parece sentir-se Vergílio Ferreira... Gonçalo M. Tavares produz uma literatura referencial. Trata o (seu) conteúdo literário tendo como testemunhas o Valéry, o Brecht, o Musil, o Calvino, o Walser, o Breton, o Joyce, o Beckett... As referências, quoi! É um remoer de fundamentos, de alicerces que justificam que não se está a brincar às literaturas, pois os citados são, para o autor, o cimento da literatura moderna europeia. E são, de facto, entre muitos outros... O que espanta é tanta "ajuda" literária. O pós-modernismo aqui é duplo, apesar das contradições literárias enormes entre os alicerces literários citados. O campo literário é apresentado como um "universal" para o qual todos trabalharam ou trabalham sem contradições; todos estariam de acordo, quando sabemos que a história literária é a história da guerra civil entre os participantes das expressões. Além disso, uma arte, uma expressão (artística) nunca serviu de garantia à própria arte. Cada expressão nova é a morte da arte (Adorno, "Minima Moralia"). O que garante a arte são os cânones à volta dos "agentes de expressão"; não eles próprios, e o que eles escrevem. A canonização será um alicerce, embora as artes da escrita aqui citadas nunca tenham sido um alicerce de nada, muito menos uma garantia. Os "agentes de expressão" não alicerçam nada! Quebram os alicerces! Há, da parte deles, uma recusa, a não ser os que, de início, se inscreveram (ou se inscrevem) imediata e abertamente na constituição dos alicerces institucionais ou mentais, como é o caso da "ajuda" Valéry que serviu os cânones mais do que qualquer outro dos citados... Outros fugiram dos cânones, como Walser... Outros sabiam que figurariam nas histórias literárias e que os cânones seriam eleitos a partir da literatura deles, embora não participassem explicitamente na elaboração dos ditos cânones: Walser, Musil, Beckett... Voltando ao prefácio: o prefácio de E.L é patriótico: os nossos, nós, nós e nós... E.L. faz muito mais referência à história portuguesa e a "Os Lusíadas" do que à obra de G.M.T. que, por sua vez, não é nada patriótica. A literatura de hoje não poderá ser patriótica, muito menos nacionalista. O facto de não o assinalar na escrita de G.M.T. afasta-o de um dos propósitos prioritários do texto. O autor não apresenta nada de patriótico, ou pouco; o pouco a que o seguimento da epopeia camoneana o "força". O caso de Bloom e Mary - de Pedro e Inês, mal disfarçado - está na obra de G.M.T. relacionado com o crime rasteiro, sem nehuma ligação visível com o poder. O que poderá eventualmente - e nisso E.L. terá razão - ser considerado patriótico é ter-se servido de "Os Lusíadas" como paradigma, no seu fundamento literário e histórico. Para quê servir-se de uma epopeia? As viagens à Índia acabaram. Não faz mais sentido ir à Índia buscar os deuses e as divindades míticas; talvez só à maneira de Roberto Calasso, como estudioso da história mitológica indiana. Pasolini e Manganelli já estarão fora do projecto da viagem à Índia, as duas realizadas há muitos anos, e que tinham como fundamento a realização de um eventual filme, no caso do primeiro, ("L'Odore dell'India", 1961), e a informação para uma revista, "Il Mondo", de como a Índia se perdia, no segundo caso, ("Esperimento con l'India", 1975). Os dois escritores produziram tudo menos um Ersatz de epopeia. Um certo fatalismo inscrito no homem: o "sempre assim foi". O autor não aposta na regeneração dos homens, na melhoria da razão humana, na melhoria social... O destino do homem é ser "sempre assim". Afinal, Gonçalo M. Tavares é o velho do Restelo. Como já assinalado, a conquista é um dos elementos fundadores da epopeia camoneana. O epopaico pedia o herói, o povo heróico, a comunidade reunida à volta da verdade histórica. Ora, o herói (citado como tal) de Gonçalo M. Tavares é um amador (um pobre diabo) de livros! E criminoso por vingança – D. Pedro-Bloom. De heróico, o texto não tem nada; só algumas fórmulas para aproximar a obra do seu paternal lusíada. Nem Bloom é um anti-herói. É um viajante à procura de qualquer elemento místico que haverá na Índia… que a Índia lhe poderá "fornecer", como se fornece hoje um bem concreto. E para isso, faz uma viagem Lisboa-Índia (para que cidade? Varanasi, para ver o Ganges?) passando por Londres e voltando por Paris... Por simples interesses económicos de viajador? Não haverá uma viagem directa de Lisboa a New Dehli, a Mumbai? A viagem do Gama foi uma viagem marítima de descoberta, de glória e de conquista cristã. A do Bloom-G.M.T. é uma viagem sem conquista, de um trivial assustador. (Cf. "Os Lusíadas", por Manuel da Silva Ramos e Alface, 1977). Daí a dificuldade de inserir-se no original epopaico quando as realidades não são favoráveis. O risco foi enorme, não em relação ao intocável da obra de Camões mas em relação às condições de produção de um texto literário que se serve do condicionalismo quinhentista para falar de uma viagem à Índia, hoje. O que o livro propõe de interessante é, pois, esta fuga ao cânone epopaico, quando lhe escapa. Bloom é um protótipo actual do "enganado" que se engana quando procura a Índia. Será que o autor se sentiu "roubado" quando viajou pela Índia? "Uma viagem à Índia" é um livro a ler, como todos os analisados na série "O uso da língua e a sua relação aos leitores". Pertence à literatura portuguesa, embora a crítica portuguesa (e mesmo, comercialmente falando, a crítica dos jornais fora de Portugal) estabeleça critérios que se enraízam cada vez mais no mental de cada um de tal modo que, intencionalmente, se esteja a elaborar uma ciência crítica muito mais ligada ao comércio e aos editores, aos cânones clássicos de apreciação das literaturas e das expressões em geral, do que à independência das obras, não se pondo em questão a escrita em relação ao actual, à realização das expressões, tendo em conta a independência da escrita. É claro que se trata de literatura, embora a crítica em geral parta do já definido. É como se se considerasse - por exemplo - que o cinema de Clint Eastwood fosse a base cinematográfica actual, em vez de citar, também por exemplo, Bela Tarr ou Pedro Costa (a propósito!) como exemplos do que são as propostas cinematográficas fundadoras da linguagem mais adequada ao contemporâneo, antes da visão curta e retrógrada da crítica conservadora que trabalha em circuito fechado e em círculo vicioso: os amigos falam dos livros dos amigos e dos colegas dos mesmos jornais, ao mesmo tempo que se responde ao interesse dos editores. Os editores desenvolvem uma actividade comercial, à qual se junta, estranhamente, a actividade dos críticos. Estes estão, além disso, ao serviço dos leitores dos jornais e das revistas, funcionam em termos tão comerciais como os editores. Estão ligados às necessidades comerciais da maneira mais irremediável, fora as excepções, bem entendido; há sempre a salvaguardar uma ou duas excepções. O que se propõe hoje em literatura, não só na literatura mas em todas as expressões artísticas, os temas, os assuntos, os sujeitos, as matérias, os conceitos filosóficos, os materiais, as imagens, os circuitos geo-políticos, os conceitos sociais... estão cada vez mais livres, para bem das expressões artísticas. Não há hierarquia temática, conceitual... etc.. Não há tabus nem censuras... Mas o que é evidente é que se os ingredientes estão definitivamente "libertados", eles não deixam de "fazer" as obras. Assim, se uma viagem à Índia, em termos de procura da espiritualidade, é um tema como qualquer outro entre os temas, assuntos, conceitos filosóficos... etc., de que falei, não é sem consequências que um autor o propõe. Resta ainda, e acima de tudo, a maneira, em todo o caso. A espiritualidade na Índia é um assunto entre todos os assuntos possíveis. Não exprime nenhuma "prioridade", nenhuma "necessidade" - et tant mieux! -, a não ser para o autor. Não está ligada a nenhum cânone. Não se trata de um assunto mais nobre do que outro. Os leitores têm a possibilidade de se posicionarem em relação aos conteúdos expostos, aos conceitos filosóficos, à maneira, ao estilo... à leitura da actualidade, na medida em que estamos aqui e agora. A conclusão pertence ao conjunto de que somos todos parte como leitores críticos. Aqui se estabelece, ou deveria estabelecer-se, a controvérsia necessária à constituição de um mental analítico consciente e responsável. Será que G.M.T. tentou a paródia, como Joyce-Ulisses a propôs a partir de Homero? O Autor, numa entrevista ao "Jornal de Letras", n°1063, diz: "No caso de Viagem, o ponto de partida foi mesmo pensar o percurso de um herói (sic) no século XXI. É a epopeia de um anti-herói individualista". Herói ou anti-herói? Outra questão: como servir-se hoje de uma epopeia de tipo camoneano para enquadrar um personagem, depois de Portugal ter passado pela guerra colonial, guerra, como todas as outras, onde o heroísmo é um dos factores da própria constituição da guerra - assim como a camaradagem, tão exaltada por António Lobo Antunes? O heroísmo que as epopeias descrevem é um elemento constitutivo das epopeias, particularmente da camoneana. Esta guerra, por ser colonial, foi uma guerra da banalidade criminosa. De resto, todos os livros de ficção e de poesia saídos da tal colonialismo não são senão material próximo do miserável e do miserabilismo da "verdade histórica" que o regime dictaturial impôs, ou que os militares, substituindo-a, instituíram para poderem suportar ideologica e mentalmente o que estavam a "cumprir". Também pouco foi escrito como análise, numa perspectiva crítica; a perspectiva foi sempre a do soldado português na sua desilusão militaresca de não poder ser herói e de não batalhar por uma justa causa. O que daqui resulta é que, em Portugal e na literatura em português, não se fez - nem se fará? - uma crítica poética ou ficcionista que descreva mais do que o "désarroi" do combatente inútil. De "Os Lusíadas" à "Uma Viagem à Índia" vai-se de utopia a utopia, a primeira quinhentista com tudo de heróico que a epopeia da época permitia (ou exigia), embora se possa hoje falar da ingenuidade (criminosa) de Camões, não só por ser uma epopeia sobre o domínio com toda a falsidade das epopeias de conquista mas sobretudo por ser mistificadora do risível papel de conquista cristã que os governantes da época se impunham; a segunda, a de Gonçalo M. Tavares, por fazer um salto histórico do "heroísmo" quinhentista para a inglória actual, saltando o período negro da sobrevivência da população portuguesa ao salazarismo e da subordinação mental ao mesmo regime e à igreja católica apoiante do regime e da guerra colonial. Este salto revela uma espécie de inconsistência (inconsciência?) da parte do autor que saberá, embora mais novo do que as gerações que fizeram a guerra colonial, o que foi precisamente esta guerra colonial. Não se pode abandonar (ía a dizer "esquecer o que se passou", mas não será o caso, embora, literariamente falando...) a literatura em português à ligação epopaica, a "Os Lusíadas", sem repensar, através da língua portuguesa, o que historicamente lhe ficou definitivamente colado, como não se pode estudar hoje a literatura e a língua alemã sem saber que ela sofreu da deformação emblemática da chamada "L.T.I." - "Lingua Tertium Imperium". (Cf. Victor Klemperer). Uma realidade como a guerra colonial portuguesa está dentro do implícito português expresso pela língua, literária ou não, à qual só se poderá escapar pela análise da língua na sua relação aos usos instrumentais ou artísticos, pelo trabalho de destruição, pelo trabalho analítico de desconstrução do mental a que a língua se submeteu durante muitos anos, sobretudo durante o período das guerras coloniais. Os factos ficam gravados na História, na língua e nas nevroses. A língua escrita, se não examina os fenómenos que a língua assimila, propõe a estagnação, implica a não rejeição dos factos históricos que se aglomeraram na nevrose colectiva. O mental e a língua falada e escrita em Portugal e nas ex-colónias foram marcados pela língua imperial salazarista (L.I.S.). Só uma crítica profunda dirá que a ligação ao Camões épico é afinal importuna, se não for feita com a controvérsia que a guerra colonial passada impõe. Como já disse, de tudo e sobre tudo se pode escrever. Não há tabus. Mas cada escritor paga um tributo segundo a língua que utiliza. A liberdade é a do escritor e ao escritor tudo se lhe permite, ao nível do exercício literário. Não há limites, embora nós estejamos aqui para analisar as formas e os métodos que determinam o mental de cada escritor ou de cada cidadão. (Cf. Nelson Goodman). A propósito de Céline e da liberdade do escritor: confunde-se muitas vezes a sua liberdade de escritor com a apreciação que cada um de nós poderá fazer, ou que o Estado francês, neste caso e recentemente, ou qualquer outra instituição ou participante possam fazer. Se ao escritor todos os assuntos estão verdadeiramente disponíveis, embora haja censuras pessoais ou institucionais que se aplicam malgré tout, nada impede que se analise determinado posicionamento de um artista (de um escritor) num determinado período histórico e a sua atitude em relação a uma comunidade em particular. O facto, esteja eu de acordo ou não, que o governo francês não tenha querido comemorar os cinquenta anos da morte de Céline, não impediu Céline nem outros escritores de escreverem o que bem entenderam (ou entendem). Céline escreveu numa época em que a censura existia de facto, na França, sem no entanto ter sido censurado, ou ter ele próprio censurado as opiniões sobre a comunidade judaica. Antes de tudo, quando escrevemos ou falamos, estamos a fornecer aos outros uma linguagem, um aparelho que é mais do que um aparelho fonético simples. É uma aparelhagem complexa que abrange, fenomenologicamente, o que cada um de nós é. Assim, ninguém escapa à "clarificação" que a língua faz de nós próprios. Quando nos exprimimos, definimos mais os nossos limites do que a nossa liberdade. E isto foi largamente confirmado pelo próprio Céline. Para se exprimir um pouco mais do que a simplicidade redutora da língua de cada, é necessário colocar a língua e os conteúdos numa esfera de controvérsia, num plano de igualdade entre a língua, como ela nos chega - a língua a utilizar - e a capacidade crítica de que estamos cientes do "ce que parler veut dire" (Cf. Pierre Bourdieu). E isto sem ir à procura de critérios obsoletos, como o de procurar um "génio" para ultrapassar os limites da própria língua. Não só o critério de "génio" é obsoleto (terá sido sempre obsoleto, nasceu já morto) mas também utilizar a figura do "génio" para resolver a "ultrapassagem" da língua será inoperante, na medida em que ninguém foge aos limites da experiência pessoal e da língua que utiliza. É neste sentido que se pode dizer que cada escritor é determinado e determina, pela sua linguagem, a época em que nasceu. A sua relação com e à língua é tanto mais evidente quanto mais claro aparece, implícita ou explicitamente, o resultado do choque contra a redução linguística. Caso contrário, será um escritor "sujeito" à língua. Todos os actos socio-políticos têm uma influência clarificadora do passado. Os actos históricos completam a interpretação não só do presente mas também do passado de tal modo que, ao mesmo tempo que se clarifica o que foi pensado e escrito, se esclarecem os fenómenos artísticos que, até aí, não tinham tido uma leitura negativa. Deste modo, a guerra colonial portuguesa veio clarificar o pensamento redutor da literatura desde o Camões de "Os Lusíadas" ao "Camões" do Oliveira Martins, precisamente. Da mesma maneira, o fascismo, o nazismo e o comunismo vieram responsabilizar os pensamentos do passado, aqueles onde já figuravam, explicita ou implicitamente, os veículos mentais que tornariam os sistemas totalitários viáveis nalguma medida. O que a expressão artística tem de irremediável é que ela figura-se e instala o que realmente é. O que a expressão artística exprime resolve-se na História, abre-se ou fecha-se, completa-se com os acontecimentos actuais, mesmo quando se trata de obras do passado. "Os Lusíadas" e Camões (por volta de 1525-10 de Junho de 1580) não têm um significado idêntico ao D. Quixote e a Cervantes (1547-22 de Abril de 1616) nem à obra de Shakespeare e a Shakespeare (1564-23 de Abril de 1616). Os últimos dois fizeram obra que não responde ao processo mítico e nacionalista. Em contrapartida, "Os Luisíadas" representam a criação epopaica e mitológica da História dos portugueses coloniais e dominadores. Não é só a responsabilidade de Camões que está em jogo. E a responsabilidade do escritor Camões restringe-se à época. O que o pensamento português fez do escritor e, sobretudo, da obra é que me leva a dizer que o papel que serviu de fundamento a um mito colonial foi assim estruturado pelos estudiosos não críticos, não da obra, literariamente falando, mas do conteúdo de valorização e de "heroïzação" do "povo" português, ou, pior ainda, da raça portuguesa! Não ignoro este aspecto da questão do autor que é um dos fundamentos da literatura portuguesa e da sua ligação ao mental português. Camões escreveu uma obra servindo-se de todas as referências que vão da mitologia à narração histórica, fazendo de "Os Lusíadas" a epopeia victoriosa dos descobrimentos efectuados pelos navegadores portugueses, e só pelos portugueses, como se fossem "únicos", no sentido de grandes, e os únicos. Servir-se, portanto, dos termos mais reveladores e conhecidos dos leitores, de modo a criar uma "revelação" já sentida e conhecida, já emocionalmente elaborada. Camões serviu-se também da forma literária mais adequada à glorificação dos navegadores portugueses, como se eles tivessem sido os escolhidos para tal grandeza. Não há juízo crítico da parte de Camões, sobretudo quando se escolhe a forma literária da epopeia para se relatar factos ligados à História. Não há equilíbrio social e histórico; há só uma literatura que transforma a História para benefício dos leitores portugueses emocionados. É uma obra de propaganda, já na medida em que as epopeias relatam favoravelmente alguém - um herói - ou um conjunto de personagens ao serviço de uma causa nacional ou hegemónica. Pensar inserir uma obra actual num esquema camoneano, ou melhor, "lusidiano", significa querer servir-se dos mesmos elementos - ou dos seus restos - embora o que Gonçalo M. Tavares escreveu tivesse sido só a realização de um formalismo epopaico-camoneano e não uma comparação-revisitação da obra em si. Mas assim, Gonçalo M. Tavares pôs de lado todo o referencial da obra. Este "pôr de lado" é uma impossibilidade histórica. Significa que não o sentiu; significa que ninguém lho assinalou, que ninguém na cultura portuguesa lhe propôs a reflexão; nem ele a provocou com a sua obra. Gonçalo M. Tavares fez só uma outra viagem à Índia. O servir-se do modelo camoneano é a despropósito. Não digo um despropósito, na medida em que os escritores fazem o que lhes apetece, agem, precisamente, "a despropósito". Digo a despropósito por não ver para que serve - literariamente falando - inserir-se uma actualidade na estrutura da obra de Camões, e desta maneira: um plano em que se oferece a estrutura da obra e o ponto de chegada. A Índia foi sempre para Portugal, sobretudo depois de mil novecentos e sessenta e um, a perda e, depois, o desmoronamento do mito do império; do mito e da realidade. Só que o mito vem de Camões através, entre outros, de Oliveira Martins. Quanto à responsabilidade mental de Camões ela é igual à dos aos escritores da época, salvo que alguns escritores não colaboraram em nada que representasse um nacionalismo mítico. Cervantes e Shakespeare estão entre esses escritores. Rabelais (entre 1483 e 1494-1553), também não. A obra de Camões não é independente da História da época. A sua poesia e o seu teatro são mais independentes da História portuguesa, embora os seus "actos de linguagem" representem a continuidade histórica da literatura que vem de Petrarca - muito imitado por Camões - aqui, sem sentido pejorativo, na medida em que se praticava a imitação sem que essa fosse considerada plágio - e que representa a História da literatura da Europa. Camões quis fazer obra laudatória utilizando o que os intelectuais e os conhecedores da História coetânea conheciam. A intertextualidade - um tipo de intertextualidade será aquele que pertence ao conhecimento, à cultura comum - é imediatamente perceptível e interpretada favoravelmente em relação aos mitos que engrandeceram a epopeia portuguesa. Camões coloca a viagem marítima para a Índia na apoteose-conclusão da realização do império. A demonstração literária é evidente. A finalidade, também. A leitura da obra de Gonçalo M. Tavares significará que a viagem se alterou e que, hoje, se propõe a todos - e não só aos portugueses - uma Índia que não é mais uma base de um império, por um lado, e viagem especial, por outro lado? Mas então para quê a base estrutural da epopeia? A introdução de Eduardo Lourenço falsificou a intenção de Gonçalo M. Tavares? Creio que sim, que desviou a estrutura que Gonçalo M. Tavares unicamente seguiu para fazer do texto uma revisitação mítica da Índia (à Índia) e da viagem à Índia. Tavares conheceu a Índia de hoje como a maior parte dos viajadores - turistas ou não: por pouco tempo. A sua "procura da Índia" transformou-se em obra e, para a transformar com algum "apoio" literário, serviu-se do Camões, de "Os Lusíadas" e do mito impregnado nos portugueses. É esta a precaridade em que a obra cai, por não ter acrescentado uma visão que levaria a sua obra e a obra de Camões a leituras fora do mítico. Gonçalo M. Tavares não construiu, em todo o caso, nada de mítico. Mas não abanou os mitos ligados ao mental português. O prefácio de Eduardo Lourenço mais vem acrescentar a esta problemática, sem resolver nada de concreto. "Noi abiamo creato il nostro mito. Il mito è una fede, è una passione. Non è necessario che sia realtà. È una realtà nel fatto che è un pungolo, che è una speranza, che è una fede, che è coraggio. Il nostro mito è la nazione, il nostro mito è la grandeza della nazione."; Mussolini, texto citado na obra "L'enigma democracia - Le idee politiche nell'Europa del Novecento", por Jan-Werner Müller, traduzione di Luigi Giacone, Einaudi, 2012, p.138. Esta frase que Mussolini teria dito é aqui citada para responder à questão da glória que a obra de Camões tem como finalidade. Em contrapartida, não há semelhança entre os dois autores, Camões e Mussolini, além desta particularidade que une a obra de Camões ao que pronuncia Mussolini, e ao fascismo, um movimento mais do que um pensamento, que pertence exclusivamente aos séculos dezanove e vinte e que estes séculos, e não outros, fundaram. Não há recuo possível do fascismo até a "Os Lusíadas". Não é Camões que está em jogo, mas sim o processo que construía epopeias sobre colectividades ou figuras "gloriosas" da História através da forma literária da epopeia e através dos mitos. O que está em jogo são os conceitos de "glória" e de "glorificação". À suivre.