dimanche 20 février 2011

Adoecer - Hélia Correia - O uso da língua e a sua relação com os leitores, 2

Modificado a 15 de Outubro de 2015.
A seriedade das ideias elevadas ao absoluto, à certeza e ao autoritário da "beleza" não só da escrita mas do tema e das personagens que exprimem antes de tudo uma nobreza artística e, muitas vezes, uma excepcionalidade de carácter, colocam o texto de Hélia Correia, em nenhum sítio intitulado "romance", numa plataforma de aceitação, pela parte da crítica clássica, já tão elevada que me parece inverosímil.
O não querer questionar a época contemporânea por intermédio da literatura é já uma "informação" interessante a considerar na análise da obra em questão.
Por outro lado, a recepção do livro pela crítica foi tal que este novo texto de Hélia Correia já está inserido na História da literatura portuguesa e, por decisão dos mesmos críticos, na História da literatura universal - os críticos em questão ainda ligados à questão da universalidade dos valores segundo os critérios desenvolvidos desde Hegel até aos mais "exigentes" críticos do século vinte.
A literatura aproxima-se, neste caso, da sua perfeição, se não é mesmo a perfeição completa e absoluta, na medida em que é já definida como histórica, como sem réplica possível, já canonizada. Tanta afirmação de perfeição deveria ser uma chamada importante para a controvérsia, quer dizer, se tão forte é a opinião generalizada da crítica, alguma problemática estará em questão. Não se pode criar hoje e agora uma obra que tenha tal aceitação sem ser já em si uma pergunta e uma questão a desenvolver em si.
Não é só o livro que está em questão mas o que é a literatura, o que se espera dela, e o que é a perfeição histórica dos clássicos. O que é um clássico, como se atinge o classicismo já e aqui, imediatamente? O que significa o classicismo para os críticos e para os leitores de Hélia Correia?
A aceitação generalizada e fundada na História literária é um lugar comum da valorização que se quer imediata dos cânones literários, desta vez propostos por Hélia Correia. Quem está interessado na fixação dos cânones, quem estará interessado na rigidez imediata do cáracter histórico da obra em questão? Ou o carácter histórico é já por si característico do valor perfeito da obra, ou será o contrário? O facto de ser já a "perfeição", de ter obtido a "perfeição clássica" (sic) limitará e atirará a obra para um "já feito", para o mundo das inutilidades?
Hélia Correia apresenta-se como uma escritora "clássica", conservadora e confiante na própria "arte" que explana e demonstra. Faz parte do núcleo de autores para quem a literatura é um exame já provado. O modo literário de Hélia Correia é demonstrativo, explicativo desta grandeza imediata entre o texto, a autora e as personagens. Mais uma vez, a autora é intermediária entre estas grandezas, a autora está ao serviço (de forma arrogante, não só no texto do livro mas também nas entrevistas - Complexo de mordomo?) das personagens brilhantes que foram para a história da pintura, da poesia, das artes em geral, e da época social.
As personagns são já em si revolucionárias como a pintura também o foi e é, afirma Hélia Correia não sempre de modo explícito, pelo menos no livro, mas nas entrevistas. A ver mais longe.
Nenhuma crítica, no sentido de "posicionamento novo", aparece no livro, no que diz respeito à pintura pré-rafaelita. Pelo contrário: o que foi lido por Hélia Correia ácerca das figuras reais está reproduzido muitas vezes da maneira mais académica, resumindo o que outros já disseram, num sentido pedagógico - sem originalidade, repito -, imediato e sem significado analítico. A pintura pré-rafaelita não é posta em questão, as personagens principais e secundárias são instrumentos duma época grandiosa que revolucionou o mundo, apesar da discussão necessária, se quisermos pensar numa controvérsia possível, entre o que foi a pintura pré-rafaelita, o que ela teve de reacção à pintura sua contemporânea e à história da pintura em geral, e o que ela significou como influência para o futuro simbolismo. Nenhuma questão é anunciada. Não teria sido o propósito do livro pôr em questão esta pintura, está bem claro, mas o que está também claro é a sua aceitação sem nenhuma controvérsia da parte da autora. Hélia Correia aceita toda uma época e um "movimento" por causa do valor intrínseco das personagens e do lado ofélico que lhe interessa pessoalmente. Quanto à "la mise à l'épreuve", não há nenhum passo: aceitamos a pintura, os pintores e as personagens adjacentes.
Daqui um lado biográfico que vem das notícias biográficas que a autora foi lendo e do facto de que todo o romance de feição tradicionalista é já em si biográfico, como digo mais longe. Trata-se aqui de uma biografia de biografias, à qual a autora diz ter acrescentado o que os biógrafos não viram por incapacidade subjectiva, por não terem procurado o íntimo, por não estarem na pele de Lizzie. Lizzie é o veículo, é ela que leva Hélia Correia ao limite do texto.
Hélia Correia diz que "vê" muito mais, "vê" além dos biógrafos. Estamos mais diante dum estudo biográfico do que de uma biografia. Será uma ficção biográfica, na medida em que o "romance" é geralmente biográfico, salvo excepções que a modernidade quis, por vezes, desfazer - se quisermos ver este texto incluído no registo do romance.
A proposta da autora é uma proposta satisfeita com o movimento e os pintores dela como também do mundo que criaram à volta desta mesma proposta artística. As personagens definem a época, tanto como a pintura. Não se discute o sublime artístico, as personagens são muito mais apresentadas do que postas em controvérsia, ou simplesmete em questão. Elas estão de acordo com a pintura, são o seu significado social, sendo a pintura pré-rafaelita a explicação subjectiva e portanto artística da época.
A relação à hiper-biografia ou à biografia romanceada, ou à relação entre o íntimo da autora e a sua personagem principal, a simbiose entre as duas, mulheres de surcroit, indica um "estado de alma" que a autora não quer subverter; pelo contrário, a simbiose dá como resultado uma exaltação estetico-sensível, uma penetração - di-lo muitas vezes a autora - entre ambas, uma compreensão que vai além do texto, que paira, portanto, acima da personagem de Elisabeth Siddal, uma suficiência da autora em relação a uma "relação" pessoal, transmigração das almas ou transfiguração dos momentos da época nos momentos recentes e vividos pela autora durante a escrita, e não só; antes mesmo da realização da escrita, numa metempsicose, numa metamorforse e simbiose que atingem ou o grau intenso de arrogância - como "entrar na" personificação de Elisabeth Siddal e sentir-se dentro -, a interiorização convencida de pertencer ao interno da figura, ao entrar nela por desígnios de destino, palavra muito usada no texto - ou da certeza de carácter religioso, uma certeza que vem acima do consciente racional e que se coloca na esfera da virtude teleológica ou da ordem do milagre.
"Adoecer" é mais uma cronologia comentada e vivida por dentro, na sintomatologia acima referida do que uma ficção, romanesca ou não. As biografias são consideradas obras de segunda importância; daí o ter a autora fugido da biografia, à qual, pelos vistos, não acrescentaria nada de original, na medida em que, parece pela leitura não ter feito pesquisa, e ter publicado esta "cronologia" com a ideia de ficcioná-la. As declarações da autora vão, contudo, no sentido de termos que considerar a obra como uma ficcção romanceada e não uma simples biografia. Isto no que diz respeito à caracterização básica da obra feita pela autora e pela crítica que aplaude um texto "bem escrito" - o que significa bem escrito segundo as normas clássicas, precisamente. Cf. Miguel Real, Jornal de Letras, n° 1030, de 24 de Março a 6 de Abril de 2010: "Não sabemos se Adoecer é superior a Lillias Fraser (2001), uma obra-prima de um certo tipo de romance histórico, ou se este àquele, mas sabemos que ambos se estatuem num patamar de superior qualidade estética. Este novo romance de Hélia deveria ser de obrigatória leitura para todos os aspirantes à arte da escrita literária, não para ser imitado mas para que todos tomassem consciência da diferença abissal entre o realismo descritivo, primeiro patamar da escrita de um romance, e a obra de arte.". (Os sublinhados são meus). Miguel Real não hesita em chamar o texto de "romance" e chama-lhe modelo de romance que todos deveriam ler, sobretudo os aspirantes à arte da escrita literária.
Noutro ponto da crítica Miguel Real chama a atenção para "... a beleza da frase, a forma sintáctica descomprometida dos padrões gramaticais, o império das paixões interiores motivado pela palavra sensível, justa, certíssima, outra não poderia estar ali, despertando subtilmente a emoção do leitor, que, ferido, se comove, concordando, resignando-se ou revoltando-se, isto é, incorporando o texto, que passa a ser seu. A autoria pessoal transfigura-se em autoria universal - é um texto de todos e para todo o tempo. De actual, mal publicado passa a ser um clássico. Não se pode pedir mais a um romance". Miguel Real não se apercebe que a lotaria das palavras com que se labuta quando se escreve, sobretudo no que diz respeito à ligação entre consciência e feitura/realização literária, é tão vasta que a palavra justa, certíssima é uma impossibilidade; e que, na medida em que não o é, torna-se então um comércio: a palavra certíssima não existe na hesitação literária que acompanha o fazer do texto, fora os casos da literatura comercial, onde a palavra justa será a que menos interrogações/variantes possui em si. Ao querer fazer o elogio do estilo clássico, Miguel Real diminui a intervenção literária de Hélia Correia.
Um texto "bem escrito" é aquele que não perturba o equilíbrio do leitor, que lhe dá conforto e segurança, certezas justas por estarem sem equívocos do lado da moral mais voluntarista, o que é agradável e, de acordo, interessante e mesmo democraticamente útil, mas que poderia estar no âmbito duma crónica, duma biografia que desenvolveria pedaços da "vida das personagens". O livro sai da biografia, já o dissemos, mas não sai da biologia biográfica, dos acontecimentos e do progresso dos acontecimentos desde o nascimento, até à apresentação e à morte das personagens principais. Diga-se entre parêntesis que o texto tem também ligações com o revival musical dos anos sessenta/setenta, no que diz respeito à música folk inglesa, cujos praticantes se relacionaram com o movimento pré-rafaelita e cujo movimento revival reivindicava a tradição oral medieval e o comportamento em grupo nas atitudes em relação ao núcleo familiar ou dado como tal, às comunidades fraternas e ao ambiente medieval e às suas pseudo-imitações. The Medieval Renaissance Music, The Psychedelic Folk... eram intitulados que classificavam tal comportamento musical e extra-musical. The Fairport Convention e The Incredible String Band, The Albion Band, entre outros, poderão servir de fio à reconstituição histórica dos momentos da vida de Siddal e de Dante Gabriele Rossetti.
Este voltar atrás é uma das características dos dois últimos "romances", "Lillias Fraser" (2001) e "Adoecer" (2010). Textos-romances de reconstituição histórica ou romances históricos? Textos de referência histórica, neste último caso sobre figuras que existiram, poderia situar-se o texto de 2010 na esfera do romance de reconstituição histórica na moda, ou que nunca saiu de moda. A escrita é purista e mesmo puritana, o relato de conotação sexual não abunda, antes uma caracterização da "boa" visão dos fenómenos, onde a sexualidade é encarada como um dos aspectos a relativisar, e não como um motor por vezes infernal. O seu oposto será Stringberg, por exemplo - "Inferno" -, ou, para não recuarmos muito e citando outra figura do norte, Ingmar Bergman, nos quais a sexualidade se apresenta como um volume explosivo e abismal. A proposta literária de Hélia Correia é do teor seguinte: "Ela virou-se para quem falava do seu tutor com tanta intimidade. Charles Augustus Howell tinha apenas dezassete anos, mas a seriedade e uma espécie de desgaste nos seus traços davam-lhe aspecto de mais velho. Ainda que a beleza e uma sombra de arrogância pudessem facilmente conquistar o favor feminino, a verdade é que ele nunca os usou para esse fim. Lizzie reagia com hostilidade a aproximações sexualizadas. Interpretou bem Howell e sorriu." (Os itálicos são meus).
Aqui está um exemplo desta escrita sintonizada com a justeza, com a segurança que as palavras que eu pus em itálico revelam e que se aproximam bem dum certo puritanismo de convento, uma realidade a afirmar da maneira mais categórica para não haver equívocos. A prosa de Hélia Correia não traz equívocos, não se submete a acidentes, a combustões internas que a levariam a algum inferno. Está dentro dum academismo soletrado, dentro duma pureza académica de irritar qualquer leitor herege. É uma literatura de edificação que se serve do aspecto "milagroso" de muitas pinturas pré-rafaelitas, do milagre de Ofélia, cujo quadro foi un coup de foudre para Hélia Correia, como ela própria o disse.
Quer isto dizer que a obra de Hélia Correia é uma obra pré-rafaelita anacrónica? A estética da frase não segue a estética pré-rafaelita, apesar da ligação sobretudo entre as duas mulheres, Lizzie/Hélia. (Ver mais longe) A matéria pedia à autora um modo literário ultra-clássico e a resposta foi esta afirmação arrogante de certeza que o texto transmite ao leitor passivo, confortavelmente instalado, e que quer saber/conhecer o segredo da fenomenologia da época pré-rafaelita e da vida dos pintores, sem que se ponha em questão a verdadeira subordinação das mulheres aos homens artistas que as queriam fazer sair da vida miserável para as poderem explorar mentalmente. Estamos numa época como muitas outras em que a mulher artista tinha pouca possibilidade de surgir. A ninfa, a musa inspiradora, sim! A escrita de Hélia Correia penetra no íntimo do que os biógrafos não falaram.
Não falaram? A biografia relata, tem o factual como prioridade, não ficciona. Se por acaso Hélia Correia entra "em territórios que nenhuma documentação pode atestar" (António Guerreiro, Expresso, 17 de Julho de 2010) é por ter decidido entrar - e não poderia ser de algum modo diferente esta relação entre Lizzie e Hélia - no terreno do íntimo, do privado imaginado a partir do que as biografias disseram e a partir, sobretudo, da relação privilegiada que a autora diz ter - a tal metempsicoce - com Lizzie/Ofélia. Foi Lizzie sacrificada como Ofélia? Estamos no mundo dos fantasmas, mundo que cai bem no movimento pré-rafaelita e na realidade que Hélia/Ofélia nos quer transmitir. A doença não é senão o motor da possível morte ofeliana de Lizzie. A aproximação macabra entre Lizzie e Hélia será feita pela compreensão da morte, na medida em que a morte de Lizzie permite a solução metempsicótica da passagem da alma para Hélia Correia/a Lizzie renascida pelo brilhantismo do texto, pela certeza das "informações" e da compreensão interna da personagem, só possível quando se encara uma entrada especial da autora na pele, e não só na pele, da personagem. Existe uma relação de alma a alma: daí a arrogância dum texto que se confia e acredita no "milagre da metempsicose", na relação além fronteiras. Esta relação poderia ser cómica; ou mesmo séria, se quiserem; aqui, ela é fantasmagórica, no sentido religioso das viagens das almas através dos tempos. Não no sentido dos "fantasmas" dos filmes de David Lynch ou de Lars Von Trier, onde a fantasmagoria é mais um poltergeist ligado à aberração e à velocidade do social de hoje que não nos dá tempo à assimilação dos dados realísticos - o que serve a estética dos cineastas citados.
Lizzie está muitas vezes em perigo, nas trevas, pressente o diabo segundo a fé cristã. Lizzie tem a noção, pela mão da autora, de ter entrado numa "elite" (p. 22). A época aproxima-se, mentalmente falando, do romantismo mais "adoentado": "O mistério da uma doença que não tinha nome tornava mais intensa a palidez." (p. 27) . Estamos coordenados pelo pré-rafaelismo, não há dúvida. Fala-se em casar e em casamentos como nos livros de Agustina que, neste capítulo, são ainda uma referência à economia do casamento que começou com a literatura burguesa do século dezanove. A teoria do casamento será, na literatura, um dos elementos mais fortes da narração biologico-biográfica.
A doença está também próxima do sacrifício e, neste sentido, estamos diante dum texto sacrificial nos sentidos seguintes: a) sacrificial em relação à grande literatura - um texto quer-se castigado, sofredor, sofrido, etc. - e b) em relação à verdade da autora, que se quer afirmar sucessora da interioridade de Lizzie, séria e sinceramente falando. Há poucos exemplos de tal metempsicose literária. A literatura deveria ser muito mais "metempsicótica" do que é, muito mais destinal do que é, dirá Hélia Correia, para se obter o sublime!
A palavra "destino" é outra presença infalível. Lizzie estaria subordinada a um destino, a uma aflição permanente entre doença e destino, a doença podendo assim servir mais confortavelmente o destino, com tal certeza que a morte é destino puro, não o ponto final da existência, mas a morte que leva à metempsicose. Embora tudo isto, o modo "informativo" de muitas passagens não permite à autora grandes voos, mesmo quando fala de mistério - aqui estamos muito próximos da biografia. Hélia Correia fá-lo de um modo informativo, os clichés não lhe dão capacidade de passagem dum registo informativo a um registo expressivo: a insistência nos clichés e no modo como a autora tenta passar a ideia de que conhece a heroína melhor do que a própria, melhor do que todos os biógrafos, dá ao texto uma arrogância que distancia o lado expressivo, ficando o lado informativo (a que António Guerreiro chama o biográfico, o factual) como primeira realidade da narração. Aqui um dos muitos paradoxos da proposta literária de Hélia Correia.
Algumas expressões fazem parte, como disse acima, da teoria do casamento, como a expressão "entrando na idade casadoira" (p. 37). Outra palavra muito utilizada é "coisa". Influência também de Agustina? Agustina influenciou toda a literatura portuguesa que veio depois dela: "Alguma coisa assustadora se abatia sobre os ombros mortais e obrigava o arrogante a pôr-se de joelhos. E não havia nessa transcendência aquele corpo castrado dos cristãos mas sim um corpo triunfal, um corpo que amara com tamanha intensidade que nem a morte o conseguia consumir. Não só como um impulso inspirador mas como protecção contra o vulgar, a predestinação constituía, de certo modo, a ligação maior ao universo do espiritual".
Mais uma vez, os itálicos são meus para clarificar alguns dos sinais da escrita de Hélia Correia: o uso do pretérito-mais-que-perfeito, não só em Hélia Correia mas em toda a literatura portuguesa actual, é uma referência de estilo (se se entende por "estilo" a garantia de que a proposta literária se pronuncia por uma presença da individualidade linguística de um autor; estilo será a solução, o ponto de vista, o "pli" pelo qual um autor interfere na transposição da linguagem comum para os "actos de linguagem", numa vontade de escolha tendo em vista a produção de uma língua escrita, ficcional ou não; cf. o conceito de Barthes de "écriture" se bem que o ensaísta se refira só à literatura e, portanto, ao ficcional; o estilo desejado é o proposto pelo conteúdo que determina uma forma; um estilo existe sempre, não é significativo do facto literário; aparece mais precisamente no acto literário por ser aí que ele se determina com a vontade de sair da norma e da linguagem comum; o estilo é uma característica da organização da linguagem; é a passagem da língua aos "actos de linguagem", numa activação da língua; é a disposição dos "actos de linguagem" e a atribuição dos lugares que dão origem à forma), é uma referência de estilo, dizia, uma preciosidade da narração, assim como a utilização do verbo conseguir (conjugado com outro verbo) que enche os textos portugueses, e não só portugueses - por exemplo, Vargas Llosa, no seu último livro, "El Sueño del Celta", aplica a mesma receita. Conseguir serve para tudo, conseguir fazer, conseguir realizar...
A linguagem utilizada aproxima-se, por vezes, apesar da autora não querer exprimir o fundo estético do pré-rafaelismo, da dos pré-rafaelitas, da filosofia da linguagem do período e da relação mistico-simbolista já presente nas pinturas. (Ver mais longe) A proposta literária de Hélia Correia é aforística, como outros críticos já assinalaram, tipo Agustina Bessa-Luís, embora nesta o aforismo seja uma impertinência altamente afirmativa e em Hélia Correia uma confirmação, uma certeza de assumir uma infra-realidade que só ela conhece.
Muitas vezes, as figuras aparecem sem que a explicação narrativa seja evidente. Mas a evidência é só para os que, além do livro que examinamos, conheçam a história da época e das personagens, e que, ao mesmo tempo, terão o poder de infiltração na mística ofélica e milagrosa onde a doença é a paixão pela arte, adoecer é apaixonar-se pela arte. O verbo apaixonar-se é já em si todo um tratado, dedicar-se às artes por paixão ainda outro.
O texto está repleto de "apenas", de "qualquer coisa", de "coisa", de "aquele, aquela", de "arrogância", de "porém", de "destino... A palavra "destino" é uma das constantes, não só a palavra mas o destino que clarifica os acontecimentos. As personagens obedecem à força destinal, à beleza - "a beleza da febre triunfava" (p.55)...
A predestinação é outro elemento presente: "Na descrição dessa mulher, está Lizzie. Gabriel ainda não a conhecia" (p.56)... Noutro exemplo o destino é batido pelas leis da terra, caso raro: "Por muito intenso que tivesse sido o encontro, por muito que parecesse inscrito numa disposição astral, as leis da terra mostravam mais poder do que o destino."
A literatura de casamento continua: "Mas William casou cedo e sem aviso. E, se Cristina conseguiu manter com ele a sua relação tão sem projecto que pôde levar nome de amizade, Maria recolheu-se àquela ausência de formosura que a marcara para Deus. A irmã, transtornada pela notícia daquele casamento e aplicada em processá-la bem, pouco se apercebeu dessa viragem.", (p.103). Este é um dos muitos casos de explicação matrimonial, como muita literatura do século dezanove (e do século vinte).
O texto resvala muitas vezes para o romance histórico: "Dispunham de belíssimas doenças, as mulheres desse tempo. Ela, porém, mostrava um atipismo fascinante" (p. 105). Há nele muita informação histórica sobre os Pré-Rafaelitas e o "movimento". 
Se no que diz respeito à forma o texto de Hélia Correia não tem qualquer semelhança com o pré-rafaelismo; nem pode ter, na medida em que estamos em campos semióticos diversos; no que diz respeito ao conteúdo as aproximações são evidentes: "Alguma coisa os atirara um contra o outro e, a cercá-los, estava a dança de uma fera. Ninguém lhes avistou esses sinais que se avistam nos casos amorosos. Uma energia negra consumia a iluminação do seu encontro." (Os itálicos são meus) Muito do texto acentua, a meu ver, a filosofia de Hélia Correia favorável aos pré-rafaelitas e à estética que eles defenderam. Este um dos paradoxos do livro: Não se pode re-criar uma época, por mais vontade que se tenha de o fazer; o que foi uma mentalidade sujeita às leis sociais da época não se pode reproduzir anos depois. O paradoxo será o de querer entrar na atmosfera da época para transpô-la para os dias de hoje, na relação Lizzie/Hélia.
Muitos fenómenos e momentos são explicados pela palavra "coisa". Na falta de critérios explicativos, "coisa" é sempre um recurso. Já Agustina aplica a mesma filosofia literária: há muito e muita "coisa" na literatura de ambas: "Havia entre eles uma espécie de preâmbulo, alguma coisa que os desenganava sobre o rumo da história que parecia uma história feliz para toda a gente." (p. 65 e 66). A página 69, que não transcrevo, é um bom exemplo de escrita oitocentesca - um pouco à maneira de Mário Cláudio; cito aqui um período: "A presença de um filho retardado era comum, então, nas descendências e, em certa medida, Harry lançava a dose certa de melancolia sobre a esgotada cama conjugal. Deus raramente se esquecia de mandar uma criança que abatesse a nuca desmasiado altiva de seus pais." (p.69).
Hélia Correia trata de preconceitos do século victoriano sem lhes juntar uma posição crítica, na medida em que fala em termos de classe, em termos de excepção em relação a Lizzie, a Gabriel e a muitos outros. As elites funcionam como motor da formação social; nada funciona sem elites artísticas. A escrita é muitas vezes especiosa e pretenciosa: "A tolerância estabelecia os seus limites sem que a vontade do indivíduo interviesse. Se havia uma linguagem de bondade, era tão débil que qualquer roçar de seda se sobrepunha à sua vibração." (p. 106).
A descrição narrativa toma a forma aforística, vai de sentença em sentença, já o dissemos: "As criadas que vinham à janela com as suas toucas de riscado, simulando sacudir a poeira de naperões, interessavam-se apenas pelas sombras que os corpos dos pedreiros desenhavam. Elas ruborizavam sob o efeito da maresia, o que gerava equívocos" (p.114). Ainda mais uma vez uma influência agustiniana. Nos aforismos está também um elevado "chiquismo" do texto, a narração elitista das frases: "O mundo obedecia ao seu desejo. Imaginava um quadro e encontrava-o inteiramente pronto, ao acordar. Ninguém o preparara para conflitos e ele empregava a força que devia aplicar à gestão de antagonismos para negar que eles pudessem existir. Deixava Lizzie a sós com aquele mal-estar em que ela não sabia pôr palavras."(p.115) E na mesma página: "Queriam tratar Lizzie como igual, mas a beleza da intenção falhava, esbarrando na herança dos seus corpos, herança que as puxava para a sala, que as levava a dar ordens às criadas, a agir por reflexo, submetidas a um comportamento taxonómico, como a do escorpião na velha fábula."
O texto transforma-se por vezes num guia cultural sobre a época pré-rafaelita. A ficção é constituída por fórmulas retiradas das leituras que a Hélia Correia fez sobre o assunto. É um condensado solto de várias frases ou ideias. Os comentários a obras que surgem no texto são do mesmo tipo que encontramos nos livros de divulgação, sem que a autora tenha acrescentado qualquer elemento pessoal convincente, como não há uma análise do trabalho pré-rafaelita; ou antes, há da parte de Hélia Correia uma aceitação estética do pré-rafaelismo e dos seus artistas. A prova estará, entre outras, na página 200, sobre a maneira como os críticos franceses "... censuravam a tendência dos quadros dos britânicos para a narrativa, em detrimento do sublime. E, no entanto, Ophelia, apreendendo no momento da imagem tudo o que lhe fora anterior, trazendo o tempo agarrado aos cabelos que flutuam, transcende a circunstância. Ela condensa todo o devastamento do amor, a vocação do feminino para a perda, o erotismo sacrificial. Na sua rectidão, Millais jamais se apercebeu o efeito produzido por aquele quadro era a necrofilia.".
Há na prosa de Hélia Correia, como nos pré-rafaelitas, muito mais um apelo à liturgia da época, praticada pelos artistas, do que a uma mística, pela razão de que a liturgia tem uma prática ao seu serviço, o seu teatro, a sua revelação dramática, neste caso a sua representação pictural, além do facto de os pré-rafaelitas serem também místicos.
A atitude que a crítica geral tomou em relação a "Adoecer" tem vários significados, entre eles o de a crítica aceitar muito mais facilmente os textos convencionais chamados "clássicos" que significam para a crítica o não desafio que este tipo de literatura implica. Não há contrariedades, o leitor não será perturbado, sobretudo se é amador da espiritualidade pré-rafaelita, do sublime artístico, se adere ao religioso incluído nas obras destes pintores, se tem alguma propensão para o simbolismo que viria depois deles e que se serviria ao mesmo nível da proposta da realidade como fundo pictórico embora simbolisticamente expresso, assim como toda a "doença".
Na "doença" está alguma modernidade que a sistematização do inconsciente como ciência veio informar-nos, na medida em que o mundo passou do domínio público ao domínio privado, com a revelação "científica" do inconsciente, salvo que no caso dos pré-rafaelitas o inconsciente não é manipulador, não é imoral, não é transformador, não cria alucinações mas uma simbologia religiosa, uma arte "ofélica" permanente, uma representação da purificação. A sexualidade não está visível nas obras dos pré-rafaelitas... Teve talvez uma visibilidade possível na vida dos pintores e dos seus modelos; não na pintura!
Hélia Correia, numa entrevista para o mesmo Jornal de Letras, n° 1030: "Por exemplo, uma madeixa do cabelo de Gabriel, que eu toquei. Ou a folha que restou do caderno enterrado com Lizzie. Também lhe tocámos e depois, não resistimos e quisemos cheirá-la. Aí, quase fomos expulsos. Não foi propriamente uma investigação académica, mas uma perseguição afectiva."
Não foi propriamente uma investigação académica: o trabalho de Hélia Correia inscreve-se noutra esfera. É difícil constituir uma obra literária nos nossos dias - para não falar na mesma dificuldade no passado - sem que a religião tenha a sua entrada directa ou indirecta. O religioso faz parte da concepção geral da maior parte das obras literárias, está presente de alguma maneira nos textos literários. É o caso de "Adoecer", não só pelo lado religioso sectário dos pré-rafaelitas mas também pela presença "milagrosa" da religiosidade na criação das personagens que estão não só perto da religiosidade pré-rafaelita como também de uma transcendência que as coloca numa espiritualidade - sobretudo Lizzie, mas não só - onde paira (é o verbo justo) o carácter religioso. A Ofélia de Shakespeare não é de carácter religioso embora sacrificial; no pré-rafaelita Millais, é-o, simbolicamente. É um efeito dessa mística litúrgica que se aproxima do religioso, do transcendente. Mística, religião e transcendência colocam o texto na via da presença de um Deus e de uma visão de "fé" que a autora tem na sua relação com Lizzie. A relação é da ordem do religioso. Lizzie é o seu Deus. Estamos no terreno da transcendência das forças destinais. O texto vai nesse sentido, o fatalismo é da ordem do romantismo ofélico "après la lettre". Há um verdadeiro casamento (mais outro!) entre Hélia Correia e Lizzie/Ofélia, tal a confiança que a autora tem nas duas personagens. E a autora di-lo com a total convicção da arte lírica romanticamente pré-rafaelita - e doentia - que nos dá a ler.
Hélia Correia transpõe o momento historico-filosófico pré-rafaelita para os dias de hoje; não só para os dias de hoje mas para os dias da escrita e da própria autora que revive em Lizzie o que ela sente por Ofélia. No fundo, há uma intimidade autobiográfica confessada por intermédio de Ofélia/Lizzie em "Adoecer", à parte do problema do que é o autobiográfico numa obra de expressão.
À suivre.