mardi 8 décembre 2009

As estéticas e o actual - O uso da lingua e a sua relação aos leitores 44

Nem do belo e do sublimes tratam as estéticas. Já o sabemos. As mais recentes conservam relações com estes dois elementos, sabendo que os resquícios estão nelas e nas obras que se dizem funcionar para a arte, a literatura incluída. A estética, de forma geral, informa hoje sobre o termo de beleza visível: um livro esteticamente bem apresentado, uma sala bem disposta, um design agradável... a beleza está por todos os lados. O termo passou a significar um belo imediato, uma boa aparência... o termo simplificou as relações no mundo da oferta supérflua. O que são os fenomenos artísticos, a relação com o inestético, como se constituem os processos de expressão, como se realizam os contactos - ou não - com os habitantes, eis algumas das observações que não criam grande preocupação, a não ser nos autores de expressões fora do mundo da beleza imediata, do que se chama compreensão imediata das narratividades, sejam elas quais forem e em que terrenos apareçam. Os autores propõem eles próprios uma análise dos textos, dos objectos artísticos, considerados como artísticos. Nas expressões actuais, se elas têm a pretensão de responder a estas questões, estão presentes os corpos analíticos. É dentro das expressões que se formulam os dados da pretensão ao artístico, do pensamento conceitual da obra e do agente expressivo, as condições de constituição da obra, as matérias sociais de que é formada..., etc. Uma obra de expressão está mais ligada aos defeitos - do social, do agente expressivo, das linguagens... está mais presa aos limites do que às aberturas, às virtudes. Uma obra não precisa de virtudes para se apresentar como controversa, como reflexo social interessante a discutir e a confrontar. Sem esta confrontação, não existe literatura, não existe expressão artística. Estamos então num terreno de caça, num território pronto para abater as lebres que se caçam por haver atiradores e, do outro lado, vítimas. Um terreno de caça propõe atiradores e vítimas. Os corpos presentes chamados artísticos são carabinas que se apresentam aos leitores lebres, vítimas sem discussão dos elementos propostos. Os caminhos históricos das mercadorias carabinárias impõem-se pelas leis que dizem respeito aos mercados económicos, mesmo veiculando conceitos artísticos.

Desde a separação entre os fenómenos artesãos e os fenómenos artísticos, a separação entre conteúdos artísticos ou não artísticos se faz com dificuldade. Muitas vezes a museologia não os distingue, as práticas institucionais também não, as práticas críticas ou de discussão conceitual normalizante também não. Fala-se de cozinha como de uma arte... por exemplo.

É natural que assim seja - não em relação à cozinha - na medida em que as fronteiras, os limites entre uns e outros não se estabelecem de maneira absoluta. Nem do absoluto temos necessidade! O que evidentemente se regista é que os conteúdos de facilitação da beleza ocupam hoje um lugar que deveria ser o que os conceitos ocupavam - e nos seus registos mais fracos - no século dezoito, quando a racionalidade criou zonas de separação entre o religioso e o iluminista. O religioso não só como matéria crítica mas também como matéria a separar, a pôr fora do campo do necessário para a existência e para a existência das artes, sem, no entanto, formular ideias contra a a presença do religioso no indivíduo, ou fora dele, no social, ou sobre a existência do divino.

O divino, precisamente, fora do artístico foi já elaborado muito tempo antes, embora a presença das temáticas religiosas tenha acompanhado desde o renascimento até ao racionalismo os conteúdos artísticos - e até hoje, sobretudo na música clássica, mesmo na contemporânea -, mesmo quando os autores já não cumpriam desejos íntimos de religiosidade mas propunham obras cujo mecenato pedia a presença religiosa. Os autores afastaram-se da divinização como elemento chamado à realização das obras, assim como o conceito de perfeição, ainda um conceito muito próximo das formulações do sublime, ainda presente durante parte do mesmo racionalismo.

O facto de se sair do sublime, pôs as obras em dificuldade por faltar-lhes um elemento que fundou muita aparelhagem conceitual, muito valor artístico, muito conteúdo. O valor do sublime impôs muitas obras, impôs muito às obras; o sublime é ainda (e foi) um valor de imposição concebido como natural, a pretender incluir nas obras (do passado) que lemos, ouvimos, vemos, mas também nas obras actuais, onde ainda se joga sobre a valorização pela temática, pela imposição do sério, do conteúdo narrativo sério.

Na seriedade do proposto está uma parte do que eu chamei os elementos intrínsecos, aqueles que participam hoje das próprias formas actuais e radicais de apresentar as obras artísticas: o sério, o não divertido fazem parte da mais elementar proposta actual. O sério substituiu o sublime, e o religioso. O que não quer dizer que a obra seja só o sério. O sério está na proposta, na pretensão a obra de expressão! Não no desenvolvimento dos conteúdos, que podem muito bem ser sarcásticos... etc.

O que se verifica hoje, na maior parte da produção, sobretudo literária - ver as minhas noções de mercados pobres (os da multiplicação, ou da obediência ao custo marginal) e de mercados ricos (os da obra única, não reproductível sem perda de valor) - é que os autores não se apresentam contra o social, mas a favor de qualquer pista que se lhes abra (ou que eles abram), mesmo quando se trata de discutir assuntos vastos como o religioso e a relação entre o religioso e o conhecimento, entre o social e a discórdia causada pelo religioso, como o caso apresentado pela última ficção de José Saramago, "Caim". O facto de José Saramago criticar de tal modo e, qui plus est, em ficção, um tema religioso (bíblico) implica provocar uma discussão sem criar, artisticamente, o fundamento necesssário para que as diversas formas de intervenção crítica se manifestem. O método de José Saramago implica ainda a noção de boa ficção, de escrever bem. O método é ortodoxo, não traz nenhuma noção apropriada à discussão do que é a literatura fora do religioso, na medida em que o texto de "Caim" se apresenta ainda como derivado das normas estéticas do século dezoito, e, como referi acima, da maneira mais débil. O texto "Caim" está sob a alçada do classicismo que engloba o religioso, na medida em que é ainda o Sublime que informa o modo e a escrita de José Saramago. O escritor Saramago inscreve-se no modo mais tradicional de perceber-se um texto pela sua "boa compostura", pelo seu exame consequente da gramática segundo os clássicos, e segundo a sua concepção de beleza e de realização da beleza artística segundo os modelos mais clássicos da estética. A estética serviu-se do Belo e, sobretudo, do Sublime, cuja origem está nos textos sagrados, no sagrado, para "enformar" os seus escritos. Está ligado ao autoritário bíblico de que se quer desfazer pelo "Caim"! Empresa árdua e contraditória! Um texto que queira apresentar-se longe da temática do belo e do sublime bíblico deverá montar uma crítica fora dos limites do classicismo literário, para assim poder também sair das influências do sublime como parte preponderante das expressões clássicas. Deverá agir por intermédio de conhecimentos críticos, por conceitos críticos e modos formais de apresentação do próprio texto que deverão estar muito longe do classicismo saramaguiano. "Caim" é um texto para-bíblico, uma das interpretações da Bíblia segundo o que de sério se representa quando se faz literatura "clássica", classicista. Ou seja, serve-se das características do bíblico - fundamento básico, com outros textos sagrados, do que é a passagem ao escrito, à literatura que chegou até hoje. A racionalidade do século dezoito separou, ou melhor, fundou a possibilidade de afastar dos conceitos fundamentais da existência, a necessidade do religioso.

A obra de Saramago é aqui citada como um exemplo da presença de elementos estéticos clássicos, pertencentes ao período da estética, quando afinal já estamos, há muitos anos, no período em que as obras mais críticas se dispuseram a formular as não-estéticas, as anti-estéticas. Não discuto por agora a obra em si, como resultado literário, se bem que, com o caminho que proponho, a obra sofrerá de falta de carácter actualizante e, portanto, de falta de capacidade crítica para uma intervenção eficaz dentro da sociedade que o lê e discute.

As obras fabricam defeitos: é pelo defeituoso (o contrário da procura da perfeição clássica) que as obras se exprimem: não pelo defeituoso em si, pelos maus resultados expressivos, mas pelo grau de presença do defeituoso em relação ao conceito de perfeito, formulado como grau infinito a atingir. As obras actuais assinalam-se pela derrapagem em relação ao social, pela "esquizofrenia" proposta à discussão.

Aqui esboçados alguns dos pontos que continuarei a propor nos capítulos seguintes.
A suivre.